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novembro 24, 2006

POR FAVOR, ALGUM PUDOR!

O Governo socrático tem cortado, ou em certos casos finge que corta, no rol de beneficiados do Estado. Corta-lhes nas pensões excepcionais, obtidas com pouco tempo de casa, ou nos subsistemas de Segurança Social, dotados de regimes de comparticipações nas despesas médicas muitíssimo acima da do regime geral. Eu senti entre os jornalistas tanto júbilo como entre os cidadãos em geral. Nalguns casos eles próprios se arvoraram justiceiros e procuraram denunciar os privilegiados. Fizeram-se manchetes sobre políticos, funcionários e gestores públicos. Ouvi comentários acesos contra estes legais “sorvedouros” do escasso dinheiro do Estado. Eu própria vociferei contra as benesses.

Neste frenesim, os jornalistas calavam cobardemente - incluindo eu - os seus próprios benefícios no sistema de saúde. Usufruíam (ainda usufruem) de um regime de excepção - A Caixa de Previdência dos Jornalistas - que lhe dava as melhores (senão a melhor) comparticipações.

Utentes do Serviço Nacional de Saúde, os jornalistas podiam recorrer ao privado e eram ressarcidos das despesas, nalgumas situações na totalidade se, por exemplo, se tratasse de uma cirurgia. Um caso que fala por si: um cidadão normal que precise de óculos, recebe da Segurança Social 75 cêntimos pela armação e 20 cêntimos para cada lente; um jornalista pode comprar a dita armação e as respectivas lentes, sem plafond determinado (há armações que chegam a custar 5 mil euros), e recebe 80% da despesa...

Calaram-se os jornalistas porque sempre pensaram que o Governo não teria coragem de mexer no privilégio da “classe” que o “fiscaliza”. Mas o Governo decidiu mesmo acabar com a dita Caixa já em Janeiro. Não creio que seja um gesto de coragem. A decisão foi baseada na ideia de que “aqueles fulanos e fulanas” (nós, os jornalistas) não vão ter coragem ou o desplante de defender o que aplaudem noutros sectores.

Ideia errada. O Sindicato dos Jornalistas saiu em defesa do que classificou de “património” jornalístico e, num manifesto que já recolheu mil assinaturas (!?), justifica a manutenção da medicina convencionada e bem convencionada para os profissionais da comunicação social: “Jornadas intensas e prolongadas e informalidade de horários, com fortes impactos na saúde e na qualidade de vida destes profissionais, como demonstra a significativa prevalência de stress e de doenças do foro cardíaco, desgaste rápido e até morte precoce. Esta situação agravou-se nos últimos anos, com a crescente precariedade, um extraordinário aumento dos níveis de exigência, polivalência e de disponibilidade.”

Quantos profissionais de outras áreas podiam subscrever este diagnóstico? Incluindo todos os que trabalham nos media, sujeitos aos mesmos horários e às mesmas exigências, e não são jornalistas e, por isso, excluídos do regime de excepção?
Alguns dos dirigentes do sindicato e dos jornalistas que subscrevem o dito manifesto dizem-se de esquerda. Uma esquerda que defende o Serviço Nacional de Saúde universal, gratuito e exclusivamente público. E pensava eu, igualitário.

Calámo-nos cobardemente até agora. Porque foi bom enquanto durou. Até para os que se batem pela igualdade. A partir de agora, no mínimo, ficava-lhes bem algum pudor.

Paula Sá

Publicado por estaccs às novembro 24, 2006 03:17 PM

Comentários

Clap clap clap clap, louvo a verticalidade destas palavras

(e agora, enquanto vai a tempo, baixe a viseira)

Publicado por: ZeBonet em novembro 24, 2006 04:59 PM

A opinião só tem sentido quando é clara e frontal. É o caso deste artigo. Parabéns!
RCP

Publicado por: Rui Costa Pinto em novembro 24, 2006 06:05 PM

Parabéns pela coragem.

Publicado por: Zé da Póvoa em novembro 24, 2006 09:59 PM

Ando a escrever isto há muito tempo, mas não é só os oculos, é tambem o tratamento dos dentes e da boca. Um trabalhador por conta de outrem para na totalidade, mas se for um jornalista ou um funcionario publico, para o estado, ou seja os impostos.

Coragem, muita coragem

Publicado por: ZeBoné em novembro 26, 2006 11:25 PM

Fantástico. Muito aplausos pela coragem.

Publicado por: Luís Lavoura em novembro 27, 2006 09:38 AM

Sendo este País uma República das Bananas, cuide-se para que não não seja envenenada.
Há muito que não leio nada assim !
Obrigado por esse momento de leitura.

Publicado por: Tolica em novembro 27, 2006 10:42 AM

Quero aqui deixar a minha homenagem e apreço por tão judiciosa opinião, o que é coisa rara neste país onde todos procuram puxar a brasa à sua sardinha. A classe dos jornalistas é, desta forma, muito dignificada. Muitos parabens!!!!

Publicado por: A.Barroso em novembro 27, 2006 11:12 AM

É fantástico o estado a que se chegou: uma opinião que mais não é de que a exercício mínimo da faculdade de bom senso e que contará com o apoio absolutamente generalizado, com excepção dos justiçados, provoca este coro de elogios ... à coragem!!
Parabéns por, pelos vistos, ser a única jornalista credível!

Publicado por: João Vieira em novembro 27, 2006 12:36 PM

Ganda coragem e objectividade!!!! Até o farol da Lusa-Atenas elogiou!!!.

Sim senhor, aliás, senhora, continue que vai longe!!

Publicado por: Luciano Gomes em novembro 27, 2006 01:34 PM

Gostei do "baixe a viseira". Mas gostei principalmente da coragem da Paula Sá. Interessante o silencio sepulcral dos que leram a Paula e assinaram o tal baixo assinado - nem um comentário! Expliquem lá à malta onde para a ética...

Publicado por: mja em novembro 27, 2006 04:08 PM

Até que enfim houve alguém que, mesmo sabendo que vai ser alvo das "pedras" atiradas pelos colegas de esquerda, colocou o dedo naa ferida. É verdade, sempre estes jornalistas defenderam a sua dama ao mesmo tempo que defendiam o tal SErviço Nacioanl de Saúde. Tanta hipocrisia...
E obrigado, Paula, pelo comentário.

Publicado por: António Veríssimo em novembro 27, 2006 05:32 PM

Também gostei muito do texto, mas o engraçado é que só teve "coragem" para o escrever, agora, que já tudo foi descoberto... Porquê não antes? Teria sido muito mais engraçado...

Publicado por: ines em novembro 27, 2006 06:07 PM

Esta sim é uma SENHORA jornalista, que merece toda a minha consideração. Como ESTA há poucos.
Os restantes deviam rever-se neste artigo de opinião.
Os meus parabéns.

Publicado por: francisco ribeiro em novembro 27, 2006 07:20 PM

Já agora! Quem é esta senhora?
Porque é que os funcionarios publicos tem que ser chamados à baila? Desde quando os beneficiarios da adse tinham os mesmos direitos dos jornalistas? E porque é que só agora e que eu soube que os jornalistas tinham um sistema tão porreiro? Porque é que os jornalistas não divulgavam as suas conquistas sociais, enquanto tanto criticavam o pouco que outros tinham?
Haja VERGONHA!

Publicado por: xerife em novembro 27, 2006 10:09 PM

Muito bem Paula Sá. Mas não me surpreende.Parabéns.

Publicado por: Raimundo Narciso em novembro 28, 2006 12:44 AM

Ah esqueci-me de dizer que só por este post o blog levava link mas sem dúvida que para além disso o blog merece.

Publicado por: RN em novembro 28, 2006 01:27 AM

Com jornalistas assim, um Portugal melhor é possível!...
Obrigado por ser assim! parabéns

Publicado por: cingab em novembro 28, 2006 11:06 AM

"...um cidadão normal que precise de óculos, recebe da Segurança Social 75 cêntimos pela armação e 20 cêntimos para cada lente..." Isto é uma vergonha mais valia não comparticipar (que é o que acontece na prática).
Escrevo sobre esta pequena parte do texto porque sobre o resto já tudo foi dito,e bem!
Embora,lembrei-me, talvez fosse interessante abordar as diferenças existentes entre os novos jornalistas e os que estão há mais tempo no activo.

Publicado por: Gomes em novembro 28, 2006 12:26 PM

Seria conveniente, para melhor se perceber a posição da senhora jornalista, que a autora é, simultaneamente, jornalista (com cargo de chefia) e professora universitária. Com dois salários, está à vontade para escrever o que escreve. Ficar-lhe-ia bem, de facto, manter algum pudor.

Publicado por: robin dos bosques em novembro 28, 2006 12:33 PM

Pois, já se compreende! Com duas profissões e cargo de chefia, também eu teria uma opinião destas, com fotografia e tudo, para me destacar devidamente. Mas tenho 32 anos de carreira, como jornalista, e não ganho mais por isso! E não vejo a nossa Caixa de Previdência como uma excepção. Sobretudo porque com a sua destruição, destrói-se também a Casa da Imprensa, a quem o Estado e as empresas do sector estão a dever milhões.

Publicado por: vendedor de sonhos em novembro 28, 2006 03:37 PM

chama-se a isto falar ( e escrever ) claro.

Publicado por: heretico em novembro 29, 2006 06:34 PM

Caro "Vendedor de Sonhos", esquece-se é de falar em todos os outros trabalhadores não-jornalistas que estão a pagar através de impostos um sistema à parte apenas para jornalistas... Que sentido faz isso? Se fosse um sistema suportado por contribuições apenas dos próprios jornalistas, muito bem e nada contra. Agora, que o Estado que tem a obrigação de garantir um sistema universal de Saúde também sustente um sistema particular só para jornalistas com o dinheiro de todos, é ridículo (aliás, como o é para as restantes classes que ainda usufruem de regalia semelhante).
Parabéns à autora do blog. Pena é que a opinião não seja seguida pela restante classe (e alguns comentários que já estão a surgir por aqui são bem mostra da hipocrisia e alarvidade que grassa neste país, segundo parece em todas as classes em geral...).

Publicado por: RF em novembro 29, 2006 07:05 PM

O que é verdadiramente triste não é esta defesa pateta quando os prejudicados somos nós mas o facto de que estamos cada vez pior com esta nivelação não pela média dos privilégios mas pelos que quase nada têm.

Não rejubilo pelos que perdem os benefícios mas antes me entristeço pelos que não os ganham.

Na Constituição *ainda* diz que a Saúde deve ser tendencialmente gratuita mas muitos de nós parece que se andam a esquecer disto na pressa da "caça às bruxas" dos que, indevidamente, têm usufruido mais do que deviam esquecendo que nada vai retornar para uma maior Justiça Social.

Até mais.

Publicado por: Mário da Silva em novembro 30, 2006 01:55 PM

Sobre o “post”, desta senhora, muitas considerações de cariz profissional/social haveria a fazer. De momento, porém, em meu entender, outros temas e detalhes merecem, estes sim, reflexão tão mais alargada quanto urgente.
Até porque, como sempre dizia o grande escritor argentino Jorge Luis Borges, ”um dia mereceremos não ter governos."...
Mas, até chegar o dia, vamos suportando as mais “precipitadas” decisões dos “pequenos deuses caseiros” (assim escrevia António Gedeão) sempre metidos em fatos cinzentos, gravatas Hermès, almoços de "trabalho" (eheheh) e duas secretárias por assoalhada, além do inevitável BMW preto, série 5, com motorista já incluído.
E tão nossos amigos que são os Governos!...
Governos que não se cansam de NOS alertar para os sacrifícios que NÓS temos de fazer por causa da situação económica do país...
Desculpem se escapou alguma coisa:
Mas quem, SE NÃO OS GOVERNOS QUE TEMOS TIDO, conduziu o país a esta situação ?
E agora, nos tempos que vão correndo, ar compungido, têm o desplante de pedir sacrifícios, sobretudo à classe média trabalhadora, aos reformados e pensionistas, aos professores, aos electricistas e ofícios correlativos, aos camponeses, soldados e marinheiros (onde raio já ouvi isto?...) e até à Dona Guiomar, ex-empregada de servir, de Viana do Alentejo ! (desculpem a ironia...)
Sacríficios ? Xiça!! Mas sempre aos mesmos????...
Não sabem onde estão as verbas que fazem falta? Eu ajudo:

-Então e as dívidas, de milhões e milhões de euros, dos clubes de Futebol, ao Fisco e à Segurança Social ? Que se saiba, ainda não foram liquidadas, desde o célebre Totonegócio!... E porque razão ninguém falou mais no assunto? Preferem a extinção de Caixas e direitos legítimos?
-Então e os muitos milhões de crédito mal parado?
-Então e as quase 50 por cento das empresas que declaram apenas prejuízos?(coitadinhas)
-Então e os milhares de outras que, para beneficiarem de vantagens fiscais, registaram a sede na Madeira e em vários outros paraísos fiscais?
-Então e a dívida monumental, dessa mesma região, ao Orçamento do país?...
-Então e os milhões de profissionais liberais (não todos, claro..) que declaram ganhar apenas (coitadinhos também )ordenado mínimo ?
-Então e as empresas, banca e seguros, com lucros astronómicos e sem tributações correspondentes ?
Vejam só os resultados do primeiro semestre deste ano: Para o BES a subida constituiu um recorde: 34 por cento em relação a igual período de 2005.
Por sua vez os lucros do BCP subiram 31 por cento, os do BPI aumentaram 39 por cento e os do Santander Totta 25,4 por cento; tudo isto, igualmente, em comparação com o primeiro semestre do ano passado. Na origem de tão bons resultados, dizem os bancos, claro, estão as comissões, a actividade internacional e a eficiência de gestão. Claro. Disso ninguém duvida.
-Então e os ordenados e as mordomias totalmente imorais (no valor de muitos milhões...) das administrações e direcções de inúmeras empresas públicas???
-Então e os serviços de saúde e comparticipações a deputados, ministros e secretários de Estado, governantes e ofícios correlativos, funcionários dos ministérios e do Parlamento, autarcas e respectivos familiares ? Também vão ser “abatidos à carga” como a Caixa dos Jornalistas e outras ?
-Então – dado que a urgência é poupar - já se imaginou os milhões que seriam poupados se acabasse ( e JÁ...) a descomunal frota de automóveis de luxo ao serviço de ministros, secretários de Estado, chefes de gabinete e adjuntos, assessores e consultores, deputados, autarcas, directores-gerais, bem como de administradores, directores, sub-directores e coordenadores de empresas públicas e outras instituições do Estado?
-Então e o que igualmente é desperdiçado, em certas empresas estatais, com “toneladas" de carros de luxo e não luxo atribuídos a quadros altos, médios, pequenos e assim-assim, que quase dão mais despesa que propriamente as frotas de operações e trabalho ?...
Obviamente que, nas situações acima referidas, bastaria apenas um carro de "prestígio"; e só para ministérios. O resto, ou se mudava a lei para acabar de vez com tais luxos em tempo de crise (então não querem austeridade e sacrifícios?...) ou não haveria carros de "serviço" acima dos 10.000/15.000 euros!... (ahahah)
-Então e as fortunas que o Estado anda a pagar, nesses mesmos sectores, em faustosas mordomias para cartões de crédito, subsídios de representação, vestuário, alimentação, deslocação, transportes, decoração sempre renovada de gabinetes, etc, etc ?
-Então e a despesa colossal (construção incluída) com os malfadados DEZ novos estádios de futebol? É que, segundo foi publicado nos jornais e nunca desmentido, o estádio de Leiria, por exemplo, custou 80 milhões de euros, mas os próximos 20 anos serão assinalados por uma dívida de 600 mil euros mais um milhão só em custos anuais de manutenção; e em Coimbra, o estádio será pago nos próximos 20 anos em "suaves prestações" de DOIS milhões de euros; e o estadio de Braga, que custou mais 100 por cento que o previsto, afinal só dá para a prática do futebol; e o estádio do Algarve, hoje paraíso de ervas daninhas, podridão, corujas e sem-abrigo, custou 66 milhões de euros e paga 600 mil euros anuais só de dívidas à banca.
E todos se recordam que, para cúmulo, ainda tivemos de pagar mais um centro de estágio, para a selecção de futebol, construido na zona de Évora!...
Não havia já Centros de Estágio que chegassem para as encomendas ? Já não serviam os magníficos Centros do Sporting? do Benfica ? do FC Porto e muitos mais? Já não servem as unidades hoteleiras de Óbidos ou do Algarve??...
Estão a ver onde afinal se poderia ir “buscar” o dinheiro?
Por favor não nos façam de parvos!
Não está em causa, nem poderia estar, a cada vez maior uniformização de políticas sociais e dos sistemas de previdência social do país, atendendo, naturalmente, à especificidade e características particulares de algumas profissões. Mas não com dois pesos e duas medidas, como está a acontecer actualmente. Isso é fazer-nos passar por parvos; a todos nós.

A.

Publicado por: tonecaspintassilgo em dezembro 5, 2006 07:11 PM

Caros amigos e companheiros de profissão

Congratulo-me relativamente ao comentário acima, posto por T. Pintassilgo. Eis, finalmente, um texto "com razão", a tempo inteiro, revelador de muitas coisas, essas sim a precisarem do tal jornalismo de investigação! (estão à espera de quê?...) Isto é ir ao fundo das questões e não apenas um bilioso despejar de invejas, demagogias e cócegas ao governo PS, a começar pela cartinha da tal senhora que - todos sabemos - ganha uns milhares bons por mês e pode pagar do próprio bolso tudo e mais alguma coisa.
Saudações.
L. Pego

Publicado por: L.Pego em dezembro 12, 2006 03:05 PM

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