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julho 07, 2006

"OS MAL AMADOS"

Transcreve-se, com a devida vénia, o artigo de opinião de José Eduardo Moniz, hoje publicado no Correio da Manhã.

"A TVI ainda se encontra a analisar o documento, pelo que não há, por enquanto, uma posição formal da Empresa sobre esta matéria. Qualquer consideração que eu possa fazer nesta altura deverá ser sempre entendida como pessoal, não vinculando, por isso, em nenhuma medida, a TVI nem a sua estrutura responsável.

É a essa luz – e só a essa – que as palavras que aqui ficam podem ser observadas.

Confesso que o filme a que estou a assistir não é totalmente novo. Tenho tendência a vê-lo como mais um episódio da série ‘Os Desencontros de Portugal com o Mundo’. Infelizmente para o País, o fosso existente entre política e realidade, que tanto tem contribuído para o aspecto com que Portugal se apresenta, também se sente no audiovisual. É uma questão pertinente numa era em que o papel da Comunicação Social e dos seus agentes, nomeadamente os jornalistas, suscita discussão aberta, pelo menos, em todas as sociedades democráticas. Analisar os Media em função de conceitos do passado, de visões imobilistas agarradas a modelos que o tempo e o progresso se encarregaram de colocar na prateleira do museu, parece-me uma aproximação inadequada e a carecer de revisão.

O audiovisual de hoje nada tem a ver com o de há anos atrás, por sinal, não muitos. O progresso tecnológico, que atravessa transversalmente nas suas repercussões todos os sectores das sociedades modernas, afecta, de forma particular, esta área. É, porventura, uma das mais atingidas. A inovação, se traz oportunidades, também é portadora de inúmeros riscos, associados, de forma directa, a um leque de incógnitas cujos limites não se descortinam nesta altura. Por todo o Mundo, empresários e profissionais, sejam eles criativos, operacionais ou fornecedores de tecnologia, olham para estes assuntos com o deslumbramento próprio de quem não pode deixar passar ao lado as oportunidades que o génio humano faculta e, ao mesmo tempo, com a apreensão inerente a quem sabe que em jogo está muito mais do que o mero lançamento ou aproveitamento de novos negócios.

Vivemos tempos conturbados à escala planetária, com a generalidade dos países a braços com situações de instabilidade, tanto do ponto de vista social como económico e político. A vulnerabilidade dos mercados hoje é mais visível do que, provavelmente, em qualquer outro período da História Moderna.

Em Portugal, há consciência plena dos problemas com que a nossa economia se debate e ninguém consegue esconder a extrema fragilidade da estrutura produtiva e do tecido empresarial. Não é hora de assacar culpas a ninguém, mas toda a gente sabe que o excesso de dirigismo não se revelou benéfico para o País. É impossível deixar de deitar um olhar de preocupação para as novas gerações que, em última análise, vão ter de pagar a factura de erros acumulados e ausência de opções estratégicas coerentes com a realidade.

O audiovisual, nos últimos anos, tem sido um dos sectores mais enérgicos da sociedade portuguesa, independentemente das dificuldades com que se debate, umas próprias da actividade, outras resultantes de condicionalismos e incompreensões várias. Já tive, noutras ocasiões, oportunidade de expressar o que realmente considero ser um facto: o inequívoco avanço que as Televisões, em Portugal, levam sobre o estado do próprio País! Inovação, modernidade, abertura ao mundo, defesa da liberdade, independência, geração de emprego, dinamização da criatividade, descoberta de talentos.

No caso particular das Televisões Privadas, este é um reconhecimento tanto mais de elogiar quanto é certo que tudo o que fizeram foi com base em recursos que se mostraram capazes de gerar e não como resultado da utilização de fundos do Estado canalizados para um pretenso Serviço Público, que ninguém consegue perceber o que é e o que alguma vez será. Gostaria que alguém me dissesse em que outros domínios se registou, nos últimos 15 ou 20 anos, tanta pujança, tanta generosidade e tanto empenho como nas TV Privadas!

Se a generalidade das empresas nacionais tivesse acompanhado a visão moderna e aberta dos operadores privados de Televisão, que protagonizam um constante processo de adaptação a novas realidades, provavelmente a economia portuguesa viveria momentos bem diferentes daqueles com que somos hoje todos confrontados e menos compatriotas nossos enfrentariam o flagelo do desemprego. Para não ir mais longe!

O percurso dos operadores privados deve, pois, a meu ver, ser encarado numa lógica positiva e não com a perspectiva céptica, derrotista e controleira com que alguns, baseando-se em ideias expressas num documento que – queremos crer – estará, acima de tudo, recheado de boas intenções por parte dos seus autores, pretendem ver reinstalada a lógica dirigista que de forma tão nefasta marcou a nossa sociedade durante anos e anos.

A TVI e a SIC têm programações pensadas de acordo com o mercado português, não destoando das que se observam no contexto europeu, incorporando apenas as especificidades próprias de um mercado pequeno e altamente deprimido. Do mesmo modo, a Informação que ambas produzem pede meças, em matéria de liberdade, independência, coragem, frontalidade, pluralismo e qualidade à de qualquer outro operador europeu, sem falar do operador público nacional.

Igualmente, é bom ninguém se esquecer de que se há mais produção portuguesa a todos os níveis (Ficção, Entretenimento, etc.), se há mais emprego, se há novos talentos, se há mais criatividade à solta, isso não resulta de uma qualquer decisão de um qualquer Governo, mas sim do esforço que as duas estações, cada uma a seu modo e de acordo com a forma como decidiram relacionar-se com os portugueses, optaram por fazer.

Nenhuma tem razões para se envergonhar do que fez. Tomara muitos terem a coragem de exercer a sua actividade com a frontalidade com que ambas o fazem e com a sabedoria de, com humildade, aprender com os erros, sem adoptar atitudes majestáticas nem cheias de vento, como tantas a que assistimos da parte de gente que precisa, a qualquer pretexto, de mostrar que existe.

As Televisões Privadas continuarão certamente a trabalhar em obediência aos princípios morais e éticos que nunca deixaram de observar no respeito pela diversidade de pensamento própria de uma sociedade democrática. Já demonstraram, em inúmeras ocasiões, ter maturidade e consciência cívica para dar e vender, independentemente de ambições alheias, tutelares ou não. Certamente, sem medo, em defesa da identidade e cultura portuguesas, continuarão a encarar o futuro, preservando a sua autonomia e a sua liberdade de programar e informar, alicerçadas em convicções fortes difíceis de abalar por ventos que sopram contra a lógica dos tempos.

José Eduardo Moniz"

Publicado por estaccs às julho 7, 2006 11:11 PM

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Publicado por: nik em agosto 31, 2006 11:22 PM

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