ogas leves (e utensílios ligados ao respectivo consumo) no seu estabelecimento comercial.
Nem duas horas depois, e apesar de estar autorizado pela edilidade local e de ter vencido a renitência dos restantes lojistas, recebeu uma visita de inspectores da Polícia Judiciária que lhe apreenderam parte da mercadoria para poderem analisá-la e, certamente, tentarem desesperadamente encontrar um argumento para lhe fecharem a porta.
Amanhã vai estar a referendo uma questão fundamental. Porém, um aspecto acessório da decisão a tomar amanhã (e que não constitui para mim questão de somenos importância) é o da liberdade de opção.
E é precisamente essa liberdade de opção que incomoda os que deixam vender drogas duras por todo o lado (o Casal Ventoso durou anos como entreposto dessas substâncias) mas apressam-se a incomodar um homem pelo seu arrojo, pelo que sentem como um desafio à sua autoridade mesquinha (falo dos que pressionam os agentes da autoridade e não dos próprios).
A Smart Shop, nome da loja em causa, não possui algum mecanismo de aliciamento nem tem angariadores do tipo time-sharing para arrastar os cidadãos indefesos para o seu malévolo interior. Na Holanda, país que tem muito para nos ensinar em matéria de cidadania responsável, existem diversas do género e nenhuma foi até hoje acusada de algum tipo de malefício.
O que está em causa, mais uma vez, é a imposição pela força de uma legislação arcaica e proibicionista. O resto são hipocrisias das que fundamentam os nãos de que este país tanto gosta a tudo quanto foge da “normalidade” institucional.
O que está em causa é a reacção bacoca do costume, proibindo e censurando tudo o que parece mal ou possui um cunho libertário.
Por isso adivinho a pressão que o Carlos irá sentir na sequência das rusgas policiais e da projecção mediática que os noticiários lhe atribuíram.
Por isso temo que os merdosos voltem a vencer uma das suas batalhas nojentas pelo primado do faz de conta.
Publicado por sharkinho às 06:30 PM | Comentários (8) | TrackBack
Hoje fui surpreendido pelas posições de duas figuras públicas acerca da questão da IVG.
Não sei se me preocupa mais ver o bacano do Ricardo Carriço a dar a cara pelo Não ou ouvir o major Valentim a berrar pelo Sim...
Publicado por sharkinho às 09:06 PM | Comentários (2)
Hoje fui surpreendido pelas posições de duas figuras públicas acerca da questão da IVG.
Não sei se me preocupa mais ver o bacano do Ricardo Carriço a dar a cara pelo Não ou ouvir o major Valentim a berrar pelo Sim...
Publicado por sharkinho às 09:06 PM | Comentários (2)
Malagueta ou pimenta na língua por dizer palavrões. Urtigas esfregadas no rabo por fazer chichi na cama. Chapadas ou reguadas por falar com o colega do lado na escola. Ameaça (felizmente não concretizada) de colégio interno por fugir de casa.
Muita coisa mudou desde a minha infância em matéria de punições pelos maus comportamentos. E ainda bem.
O famoso papão, personagem mítico que se dizia esconder-se nos armários ou em outros recantos escuros de um lar que deveríamos sentir como uma fortaleza em matéria de segurança, também desapareceu pouco tempo depois de cair da cadeira e transferir a alma penada para o pior dos infernos.
Hoje em dia, o supremo castigo é a privação do acesso ao canal Disney e será essa a referência da minha filha no que concerne a castigos pela conduta inapropriada.
O medo deixou de constituir um instrumento correccional em detrimento de uma forma ligeira de chantagem audiovisual que visa apenas recordar o respeitinho que é muito bonito e manter algum tipo de disciplina que controle os desvarios dos príncipes e das princesas que um mundo bem mais próspero e esclarecido nos permite criar.
É um privilégio poder criar um filho sem os terrores das gerações anteriores. A Pide, a guerra colonial, a inflexibilidade generalizada perante qualquer tipo de irreverência ou simples desvio de personalidade (hiperactivos, por exemplo, eram tidos por maluquinhos) desapareceram do cenário e podemos concentrar-nos no desenvolvimento saudável do potencial das crianças que geramos.
Mas isto de que vos falo não passa da versão eldorada de um burguês. Na maioria dos casos, o tempo não pôde avançar da mesma forma e o papão continua a povoar os armários vazios de comida e de ambição em demasiados lares onde a televisão por cabo não constitui argumento assustador o bastante para demover os mais novos da revolta inerente à consciência da sua condição inferior.
Tal como há séculos atrás, persistem os desníveis e a clara separação entre a “nobreza” representada pela classe média e média alta dos nossos dias e o “povo” que enxameia as ruas com as marcas de uma pobreza menos radical mas seguramente mais insultada pelos sinais exteriores que a tornam mais incompreensível e sem justificação aos olhos de quem a sente na pele.
Esse castigo por si só equivale sem dúvida a todos quantos o passado me infligiu.
E por isso não me permito a ingratidão de uma ideologia conservadora ou de uma indiferença desmazelada em relação ao mundo dos outros que sendo o mesmo é afinal tão diferente do meu.
Publicado por sharkinho às 11:00 AM | Comentários (8) | TrackBack
Ontem faltou-me a pachorra e o cabedal para assistir à totalidade da cena. Ainda assim, pude constatar algumas diferenças relativamente ao primeiro round (que tive oportunidade de vos descrever sob a minha perspectiva assumidamente facciosa).
Saltou-me à vista, por exemplo, o cuidado na escolha de convidados menos "acalorados" na sua abordagem (sobretudo do lado do Não). E aqui ressalta a nova estratégia do Não, decididamente em busca de uma imagem de moderação que desminta os tradicionais fetos desmembrados e as ameaças de excomunhão que acabam por escapar no meio do fervor religioso da ala radical.
Com menor espalhafato, os apologistas do tudo na mesma empunharam as estatísticas da treta que provam o "aumento" do número de abortos subsequente à despenalização noutros países. Claro que se esquecem de referir que enquanto o aborto é clandestino não existe maneira de obter números fiáveis para fazer comparações...
Do lado do Sim, apanhados na ratoeira dos opositores que os tentam fazer passar por extremistas em tom brando enquanto vão soltando expressões "inocentes" como extermínio, bebés, aborto livre e outros chavões emocionais para fazerem valer o seu alegado dilema ético junto da camada menos esclarecida da população (a que maioritariamente lhes poderá oferecer uma repetição do milagre de 98), os convidados pela Fátima Campos (alguns repetentes) embarcaram com demasiada frequência no tom revoltado (revolta um bocadinho, a cara de pau) que terá servido na perfeição a estratégia do outro lado.
Ficou contudo a ideia de que o Não possui propostas para resolver todos os problemas associados a este embróglio, como aliás já davam a entender por altura do primeiro referendo e todos sabemos agora acabou por ficar em águas de bacalhau, excepção feita às instituições costumeiras e o seu meritório mas insuficiente trabalho no apoio a quem dele precisa.
E é essa a pedra basilar da nova face do Não: a de terem resposta para tudo, por oposição à suposta falta de respostas do Sim para atender às consequências de uma vitória da Despenalização. Os "seus" médicos insistem na tónica da incapacidade de resposta do Sistema de Saúde, afastando-se assim do seu dilema hipocrático que por norma conduz às declarações extremadas e às recusas por antecipação em praticarem o acto que sentem como ignóbil. Os "seus" juristas insistem na óptica da defesa da criança(?) em detrimento da mãe, num tomar de partidos que não soa muito consonante com os princípios que a Justiça alega defender, fazendo tábua rasa do facto evidente de que as pessoas não abortam por gosto e de que nenhum médico alinhará num aborto químico ou cirúrgico sem uma prévia análise de cada caso que lhe caia em mãos.
O Prós e Contras de ontem em nada alterou o meu sentido de voto e tenho dúvidas de que o tenha conseguido junto de uma faixa significativa da população.
Porém, serviu para entender a subtileza na mudança do discurso com a qual é nítida a vontade dos apoiantes do Não de conseguirem demarcar-se da imagem radical que é sua marca numa questão que não escondem tratar-se de vida ou de morte (passe o trocadilho) para as suas pretensões eleitorais.
É que escasseiam os tons genuínos de quem efectivamente se preocupa com a questão da Vida, por oposição aos que no discurso evidenciam apenas o tique conservador que os arrepia sempre que está em causa a liberalização de tudo quanto não diga respeito à livre iniciativa empresarial.
São traídos pela argumentação, pois sempre lhes vai escapando o desdém pelo pressuposto de que os cidadãos (neste caso as cidadãs) possuem vontade própria e discernimento qb para gerirem os seus destinos e os dos filhos que, a serem viáveis e desejados, nunca constituiriam o cerne da questão.
Publicado por sharkinho às 11:16 AM | Comentários (4) | TrackBack

Embora seja evidente que (quase) toda a gente prefere virar a cara para outro lado, é impossível fazer de conta que não se percebe na Imprensa a preocupação justificada com as consequências da degradação do planeta em que vivemos.
As catástrofes naturais, cada vez menos naturais porque artificialmente provocadas, somam-se nos noticiários a um ritmo cada vez maior e com uma intensidade crescente. A natureza parece empenhada em quebrar recordes num Guiness medonho que já poucos se esforçam por contestar, ainda que aliciados pelas corporações a quem não interessa o alarme que soa contra as suas negligências e as responsabilidades que renegam mas não conseguem sacudir.
É patético, o empenho de alguns em disfarçar numa estatística imbecil aquilo que só nega quem finge não ver. Tempestades tropicais que se multiplicam, cada vez mais devastadoras. Secas prolongadas, associadas a aumentos de temperatura impensáveis. Nuvens de poluição visíveis a olho nu, em cada núcleo urbano sobrelotado.
Sinais evidentes, constantes, de uma reacção alérgica da natureza às criaturas que insistem na sua destruição.
Espécies em extinção, condenadas pela acção directa do Homem ou apenas pelo impacto por tabela das alterações no seu habitat.
Subida visível do nível do mar, com marcas visíveis em quase todas as linhas costeiras.
Proliferação das doenças pulmonares, epidemias com vírus cada vez mais sofisticados e letais.
A lista de ameaças latentes e de evidências flagrantes continua a crescer e pouco de concreto se faz para inverter uma situação que a Ciência confirma por todas as vias ao seu alcance. E cada um de nós tem que cumprir o seu papel e levar a sério as recomendações que visam pelo menos diminuir a progressão desta espiral de loucura colectiva que está a envenenar-nos cada vez mais.
É desagradável de enfrentar, este assunto.
Mas se continuarmos alegremente com a cabeça enfiada na areia, estaremos cada vez mais perto do dia em que a factura nos será apresentada.
E nesse dia será tarde demais para não nos deitarmos nesta cama que fazemos com todo o requinte de um leito final.
Publicado por sharkinho às 11:45 AM | Comentários (20) | TrackBack

(Fonte: Águas da Vida)
Publicado por sharkinho às 06:37 PM | Comentários (4) | TrackBack
Foto: Shark
Talvez seja só aqui na minha zona, mas os CTT andam num desnorte como nunca os vi.
Ele é carteiros maçaricos que andam pelas ruas completamente à nora e entregam as cartas no sítio errado e com horas de atraso em relação ao normal, ele é dias em que pura e simplesmente não há distribuição(!), ele é cartas recebidas com um atraso de dias ou semanas.
Semanas? Não.
Nem há uma hora atrás um cliente meu chegou ao escritório algo perturbado com um aviso de pagamento na mão.
Claro que um aviso para pagar seja o que for é sempre motivo de alguma consternação, mas o caso em concreto justifica o ar preocupado do homem.
É que tratava-se de um aviso relativo a um recibo liquidado pelo senhor em Junho. E tinha sido enviado de um endereço na Avenida da Liberdade, em Lisboa, para um destinatário residente nos Olivais, em Lisboa, no dia 23 de Abril de 2006.
Eu repito: 23 de Abril de 2006. Chegou hoje às mãos do feliz contemplado.
Agora digam-me lá que mais posso eu dizer nesta posta acerca de um exemplo assim sem incorrer num discurso no mínimo insultuoso?
Não digam. Eu fico por aqui...
Publicado por sharkinho às 06:21 PM | Comentários (8) | TrackBack
É visível o desconforto que grassa entre boa parte dos agentes da PSP e adivinham-se as tensões acumuladas no seio de um grupo cuja responsabilidade é imensa e desproporcional às compensações que o Estado lhe confere.
Os polícias são pessoas com uma missão ingrata a cumprir e lidam com o pior que a nossa sociedade produz. São a única barreira entre os criminosos, os marginais, e as pessoas decentes e arriscam o seu bem mais precioso para cumprirem essa função.
Não existe, em meu entender, qualquer justificação, qualquer argumento para explicar porque lhes é imposta uma desconsideração (aberração) tão evidente como, por exemplo, obrigar os agentes da autoridade a custearem a própria farda.
Por princípio, a remuneração de um polícia deveria ser elevada. Não apenas para compensar as mulheres e os homens que se prestam a uma tarefa tão exigente como também para reduzir ao mínimo a tentação que os possa corromper.
Mas não é.
Os polícias portugueses auferem vencimentos absurdos em função do que valem e do que se vêem forçados a suportar. E isso constitui um óbice para que muita gente de bem considere a hipótese de ponderar uma carreira policial, o que lesa sobremaneira a sociedade no seu todo.
O dinheiro é um símbolo de estatuto social, de prestígio de cada função. E isso não muda pela farda que se usa, pelo que a um vencimento paupérrimo corresponde, aos olhos da maioria das pessoas, um estatuto inferior.
É injusto que um polícia possa sentir-se nessa pele, tal como um bombeiro, um enfermeiro ou qualquer pessoa cujo ofício implique abnegação e altruismo (ou mesmo risco da própria vida) em prol de cidadãos que não conhecem de lado algum.
E que não primam pela gratidão se permitem que situações destas se eternizem como se o problema fosse de outros quando afinal é um problema de cada um de nós.
Publicado por sharkinho às 09:58 AM | Comentários (6) | TrackBack
Foto: Shark
Confesso que não vi aquilo até ao fim, não sei quem ganhou e nem me interessa.
A sério, farto-me de rir com a lista dos "grandes portugueses" que a RTP ontem divulgou. Tantos séculos de História, tantas histórias para contar e a maioria dos nomes são originários do Séc. XX???
Mas que teve de especial o século passado em matéria de portugueses e do seu impacto na grandeza do país, sobretudo quando comparado com os séculos anteriores?
É uma palermice pegada, um disparate que só nos achincalha (ouvi dizer que até o bimbo-mor, o "cai-da-cadeira", obteve destaque nesta paródia), isto de nos arvorarmos isentos o bastante para proceder ao julgamento, à avaliação dos melhores de sempre de entre nós.
Não me lixem: querem convencer-me de que um gajo que dá umas biqueiradas numa bola de couro é um português "mais grande" do que a padeira que distribuiu pazadas nos toutiços dos castelhanos para defender esta Pátria ingrata? Ou que um espertalhão das dúzias que utiliza tácticas mais do que vistas numa peleja de onze contra onze (e nem consegue que uma super equipa como o Chelsea seja Campeão Europeu na boa) é tão importante como um que inventou a táctica do quadrado e assim recambiou um exército bem mais numeroso do que o nosso de volta para a terra das paellas?
E o Cristóvão Colombo, esse insigne navegador alentejano tão bom que até os spaguettis querem pintar genovês? E tantos outros que fizeram de facto algo de relevante para sermos o Portugal que somos e não uma república das bananas qualquer ou apenas uma província espanhola como a História tanto insistiu em conseguir e apenas os verdadeiros Grandes conseguiram impedir com a sua coragem, a sua inteligência e a sua determinação...
Por isso só posso achar que estão a brincar com coisas sérias e desejar que as pessoas não se deixem influenciar por estas touradas audiovisuais que em nada contribuem para distinguir os que merecem (e isto não se deve ao facto de se terem esquecido do esqualo na listagem, juro) e sobrevalorizam os que afinal pouco ou nada fizeram de relevante no contexto do Portugal que somos em detrimento dos que nos deixaram pistas para o Portugal que poderíamos e deveríamos ser.
Contrós figurões, marchar, marchar...
Publicado por sharkinho às 11:33 AM | Comentários (129) | TrackBack
...Mas eu acredito na notícia que dá como certo um plano de ataque às instalações nucleares iranianas.
E mais: também acredito que poderá envolver o uso de armas "proibidas" por parte da aviação israelita.
Aqui surge um conflito interior muito "ocidental". Se, por um lado, ninguém se pode sentir descansado com a simples hipótese de existirem (virem a existir) armas nucleares no país dos ayatollas e tal ameaça constitui um papão do tamanho do mundo que urge de todo evitar, por outro lado a complexa realidade de um planeta já de si conturbado marcada por um ataque nuclear "sionista" a um país islâmico (a um país, ponto) adivinha-se caótica e impossível de antecipar em todas as consequências de um desastre assim.
Ou seja, temos de um lado um fantasma que intimida o nosso prezado e mui civilizado modelo de sociedade e do outro um "aliado" que não prima pela moderação nas suas intervenções e pode dar o empurrão que falta ao asneirão do parceiro que se atolou no vietname iraquiano.
Pelo meio temos uma carrada de gente comum que acredita ou não num deus qualquer e que só pode limitar-se a fazer figas e... seja o que Ele quiser.
Que nos valha...
Publicado por sharkinho às 11:14 AM | Comentários (4) | TrackBack

Foto: Shark
Depois da morte mediatizada de duas modelo brasileiras por anorexia, a televisão portuguesa descobriu o fenómeno dos blogues que divulgam e fomentam essa prática imbecil e doentia.
Ocorre-me de imediato a questão que se deverá colocar a quem detém o poder na nossa sociedade tão livre: atacar estas expressões de abuso da liberdade de expressão ou confiar no bom senso que qualquer liberdade não dispensa?
Ninguém no mundo despreza mais os pedófilos do que eu. Contudo, nunca subscreverei o encerramento de um blogue que promova a pedofilia. Soa estranho? Talvez, mas o meu primeiro instinto acode em defesa do princípio sagrado da livre expressão. Mesmo que a essa liberdade corresponda o livre arbítrio dos muitos suínos que a nossa sociedade alberga.
A privação da liberdade, o precedente que isso constitui, é uma ameaça que não posso tolerar. Por isso entendo que o Estado exija, por exemplo, o fim do anonimato para quem pretenda fazer a apologia de causas unanimemente reconhecidas como perigosas, abjectas ou de alguma forma reprováveis. Dessa forma, quem exige a liberdade tem que provar merecê-la e assumir as consequências públicas, sociais, da sua afirmação pessoal.
Não é ao Estado que compete evitar que as pessoas enveredem por caminhos foleiros, desde que essas pessoas se limitem a divulgar as suas ideias ou propósitos. Fia mais fino quando, por exemplo no caso da pedofilia, os crápulas recorram aos meios ao seu alcance para aliciarem de forma directa (via email ou outras) os incautos ou demasiado jovens para toparem o redil.
Mas eu estou a falar da existência de um blogue, pelo qual homens como o nosso colega egípcio Alaa e outros em países e com pretextos similares pagam o preço que a sua luta pela livre expressão acarreta.
Proibir, como a História comprova, apenas torna clandestino o alvo da proibição. E a clandestinidade não diminui o perigo em questão, apenas o torna mais apelativo e difícil de localizar.
A liberdade, como tudo o resto, precisa de regras. Como a que citei (do fim do anonimato) ou outras que obriguem os que abraçam causas marginais a assumi-las. Se estiverem correctos, o Estado não tinha nada que meter o bedelho à partida. Se por outro lado as causas forem ignóbeis, os seus defensores enfrentarão no seu quotidiano a reprovação generalizada e outras consequências da sua posição menos correcta.
Acredito que não existem e nunca existirão soluções ideais para garantir a ausência de abusos por parte de quem se serve da liberdade como mais um instrumento para conspurcar o mundo. Mas defendo que a privação da liberdade de expressão jamais constituirá uma alternativa para eliminar esses abusos.
No caso com que abri esta posta, a dos idiotas que fazem a apologia de um disparate, é óbvio que o risco de vida implícito para muitos/as adolescentes recomenda uma actuação qualquer.
Mas que nem ocorra aos totós que têm a faca e o queijo na mão embarcarem na facilidade mediática do fecho dos blogues em causa. Exijam a divulgação pública da identidade dos/as autores/as e deixem que os cidadãos tratem do resto.
A única ameaça que a blogosfera pode constituir, como a vida lá fora, é a dos lobos com pele de ovelha.
Dispam-lhes a pele e logo veremos quantos possuem a coragem necessária para insistirem na defesa e na divulgação de causas sem nexo.
E sem defesa possível.
Publicado por sharkinho às 03:40 PM | Comentários (18) | TrackBack
E pronto. Em Oliveira de Azeméis foi distribuído o primeiro folheto verdadeiramente sincero dos defensores do não.
Um padre (who else?) concebeu mais um daqueles aglomerados de fotos chocantes para convencer a sua paróquia a votar de acordo com os princípios que a sua igreja (sim, com minúscula) defende nesta matéria.
Fetos desmembrados e tal. O costume. E os defensores do sim, esses sanguinários assassinos de pré-criancinhas, revelam-se incapazes de contra-atacar com umas fotos à maneira de adolescentes ensanguentadas vítimas de uma hemorragia às mãos de uma parteira obscura qualquer. Mortas, de preferência, para enfatizar a cena e ombrear com as tradicionais iniciativas do catolicismo fundamentalista.
O argumento dos fetos, particularmente querido para o sector radical (e mais sincero) da seita clerical que impulsiona os esforços dos defensores do não, é apenas uma face mais pictórica das frases de choque que adornam tantos placares nas ruas do país.
Sem o poder de outros tempos, em que bastava o cura dar um pum para todos os fiéis erguerem o nariz em profunda reverência, os padrecos de treta (frontais) apelam aos serviços das tipografias para converterem os papalvos mais impressionáveis e, em simultâneo, darem início ao circo costumeiro que desmobiliza quem quer discutir o assunto com a seriedade que os desarma.
Ainda mal começou, a palhaçada. Os médicos também já entraram na dança, incapazes de aguardarem pelo resultado do referendo para adoptarem os critérios que a sua consciência ditar. Querem interferir no processo, também eles cientes do poder que detêm sobre uma camada menos esclarecida da população.
Os mais abastados, regra geral muuuiiiito crentes, já deram sinal por via da recusa antecipada de alguns dos principais hospitais e clínicas privadas do país em darem sequência a uma lei que resulte de uma derrota das suas “cores”.
Pouco mudou desde o último referendo na atitude dos que pretendem que tudo fique na mesma.
Resta saber se ao argumento dos fetos as pessoas de bem correspondem com o argumento dos votos e provam a este tipo de gentinha que a Democracia lhes acabou com a vitória fácil do obscurantismo e do medo dos papões.
Resta saber quantos se dignam levantar o rabinho do sofá e exprimirem nas urnas aquilo que padre nenhum conseguirá desmentir. A maioria da população não papa grupos e a argumentação medieval só prevalece nos bastidores beatos do seu cada vez mais reduzido séquito de seguidores.
Publicado por sharkinho às 03:50 PM | Comentários (10) | TrackBack
E pronto. Em Oliveira de Azeméis foi distribuído o primeiro folheto verdadeiramente sincero dos defensores do não.
Um padre (who else?) concebeu mais um daqueles aglomerados de fotos chocantes para convencer a sua paróquia a votar de acordo com os princípios que a sua igreja (sim, com minúscula) defende nesta matéria.
Fetos desmembrados e tal. O costume. E os defensores do sim, esses sanguinários assassinos de pré-criancinhas, revelam-se incapazes de contra-atacar com umas fotos à maneira de adolescentes ensanguentadas vítimas de uma hemorragia às mãos de uma parteira obscura qualquer. Mortas, de preferência, para enfatizar a cena e ombrear com as tradicionais iniciativas do catolicismo fundamentalista.
O argumento dos fetos, particularmente querido para o sector radical (e mais sincero) da seita clerical que impulsiona os esforços dos defensores do não, é apenas uma face mais pictórica das frases de choque que adornam tantos placares nas ruas do país.
Sem o poder de outros tempos, em que bastava o cura dar um pum para todos os fiéis erguerem o nariz em profunda reverência, os padrecos de treta (frontais) apelam aos serviços das tipografias para converterem os papalvos mais impressionáveis e, em simultâneo, darem início ao circo costumeiro que desmobiliza quem quer discutir o assunto com a seriedade que os desarma.
Ainda mal começou, a palhaçada. Os médicos também já entraram na dança, incapazes de aguardarem pelo resultado do referendo para adoptarem os critérios que a sua consciência ditar. Querem interferir no processo, também eles cientes do poder que detêm sobre uma camada menos esclarecida da população.
Os mais abastados, regra geral muuuiiiito crentes, já deram sinal por via da recusa antecipada de alguns dos principais hospitais e clínicas privadas do país em darem sequência a uma lei que resulte de uma derrota das suas “cores”.
Pouco mudou desde o último referendo na atitude dos que pretendem que tudo fique na mesma.
Resta saber se ao argumento dos fetos as pessoas de bem correspondem com o argumento dos votos e provam a este tipo de gentinha que a Democracia lhes acabou com a vitória fácil do obscurantismo e do medo dos papões.
Resta saber quantos se dignam levantar o rabinho do sofá e exprimirem nas urnas aquilo que padre nenhum conseguirá desmentir. A maioria da população não papa grupos e a argumentação medieval só prevalece nos bastidores beatos do seu cada vez mais reduzido séquito de seguidores.
Publicado por sharkinho às 03:50 PM | Comentários (10) | TrackBack

Preparava-me para almoçar, no restaurante do costume, quando o bacano começou a elevar o tom de voz duas mesas à minha esquerda.
Fazia parte de um grupo de oito pessoas e berrava indignado:
- Mas há alguém aqui que não faça o mesmo que eu, algum de vocês pode afirmar que nunca fugiu aos impostos? Deixem-se de merdas, faço-o eu como faz toda a gente!
Nenhum dos restantes o desmentiu.
E eu até rangi os dentes com a gana que me deu de entrar na conversa à bruta. Não sou um menino de coro em muitas matérias, mas respondo pelo meu comportamento nas questões fiscais. Não, nunca fugi aos impostos e sim, estou-me nas tintas para os maus exemplos que os outros possam dar nesse domínio.
Farto-me de afirmar que adoro pagar impostos. Quem me dera, aliás, pagar muito mais. E nunca arranjei esquemas para me furtar a esse compromisso, nem permiti a qualquer contabilista que o fizesse por mim para me tranquilizar a consciência.
Esta mentalidadezinha de treta que arrasta provavelmente a maioria dos portugueses para jogadas que fintam os cofres do Estado das mais engenhosas ou descaradas maneiras é uma das explicações para vermos o resto da União Europeia a distanciar-se de nós na pirisga.
Isto não é moralismo da tanga. O bacano estava a gabar-se por conseguir enganar o fisco. A gabar-se, como se isso constituísse um indicador da sua brilhante inteligência. Poucos dias antes apontava o dedo ao Sistema Nacional de Saúde, que utiliza sem hesitar e que sobrevive à custa dos impostos que chicos-espertos como ele se gabam de evitar.
Provavelmente trata-se de um dos patriotas de pacotilha que forraram a varanda com bandeiras nacionais quando a moda pegou.
Este “orgulho” parolo dos habilidosos que defraudam o Estado de toda a maneira e feitio é um cancro da sociedade que estamos a construir, não há volta a dar à falta de ética implícita nestas manobras de diversão por parte de quem na prática se recusa a custear os serviços que utiliza e defende como direito inalienável.
Fujo a este tipo de conversas com pessoas que me sejam próximas. Porque me enojam estas atitudes e porque fico entalado entre o conhecimento factual de uma ilegalidade e o facto de não me predispor a ser o “chibo” que mete a boca no trombone.
Conheço um que viveu mais de dois anos à conta da Segurança Social, numa baixa fraudulenta, enquanto acumulava riqueza num esquema de economia paralela a fazer o mesmo que a saúde não lhe permitia fazer ao serviço do patrão, há mais de dez anos atrás.
Conheço dois que depois dos cinquenta anos de idade conseguiram um “tacho” na Função Pública apenas com o fito de mamarem uma reforma à conta. Nunca se safariam através das vias normais, caso se candidatassem aos cargos que ocupam.
Conheço um que utilizava a viatura de serviço de uma empresa pública para durante o horário de trabalho exercer uma actividade comercial bastante lucrativa e que lhe garantiu um nível de vida bem acima daquele que o seu imerecido salário permitiria. Agora ainda tem a lata de receber uma reforma mensal.
Conheço outro que pagava o seguro contra todos de um carro bem melhor do que o meu endossando-me cheques do então denominado Rendimento Mínimo Garantido.
São apenas quatro exemplos, dos muitos que coleccionei ao longo de uma vida a assistir à forma mesquinha como milhares de portugueses traem o seu país, sonsos de merda que têm a lata de se considerarem honestos apenas porque “toda a gente o faz”. Como os ratos de Hamelin, seguem o trilho uns dos outros e em vez de exigirem aos políticos e aos governantes que apliquem bem o dinheiro dos impostos servem-se deles como maus exemplos a seguir. “Ah, isto é tudo a comer e tal…”
E assim tranquilizam as consciências.
Deviam ter vergonha, estes parasitas da sociedade.
São estes cidadãos comuns tão “exemplares” e “decentes”, estes pequenos bandalhos que transformam o meu país numa realidade onde cada vez mais hesito ser boa ideia criar a minha filha.
Publicado por sharkinho às 10:39 AM | Comentários (29) | TrackBack

Desde o fiasco das armas-fantasma de destruição maciça que serviram de falso pretexto para um novo Vietname à inépcia para descobrir o paradeiro do novo “hermano” de Ramos Horta (Bin Laden), passando pelas procuradas (wanted) linhas aéreas United Clandestines, a CIA parece empenhada de há uns anos a esta parte em auto-destruir a sua credibilidade.
Agora vem um médico espanhol desmentir o cancro de Fidel e declará-lo quase pronto para regressar dos mortos anunciados pela secreta americana que, de resto, terá prestado um valoroso serviço ao seu arqui-inimigo criando o clima ideal para um retorno apoteótico.
E embora custe relembrar o episódio, dificilmente a CIA não sairá chamuscada pela História quando o atentado ao World Trade Center se revelar ao público em todo o esplendor da cegueira dos espiões mais trapalhões que o mundo conheceu.
Dá a sensação que o presidente Bush himself, pródigo nas calinadas, é o maestro da cacofonia que esta CIA de brincar produz.
Não acertam uma. Ou, para utilizar uma expressão que encaixa como uma luva no desempenho destes sofisticados artolas, é cada cavadela cada minhoca…
Curiosamente, o povo americano não reage a tanta exibição de incapacidade e deixa andar como se nada fosse, mesmo confrontado a toda a hora com o desnorte desta sua derradeira (e única verdadeira) linha de defesa contra as ameaças reais (e fictícias) que a nova ordem mundial criada pelo petro-cowboy texano geram na penumbra da sua desorientação e que tem saído muito cara aos cada vez menos abastados cofres de Washington.
O vespeiro em que o Iraque se tornou, e que os homens da CIA não previram, prepara-se agora para conhecer uma nova acha para a fogueira sob a forma de um líder deposto e já meio esquecido a quem decidiram apressar o estatuto de mártir eterno.
A corda no pescoço de Saddam apertará ainda mais o nó que estrangula a imagem americana a nível mundial, pois ninguém duvide que se tratará de mais um tiro no pé que os nabos sobrinhos do Tio Sam se aprestam a (deixar) dar.
Parece intencional, tanto disparate. Por ser tão descarado, quase infantil, e trazer os operacionais da CIA para as parangonas quase sempre no papel de bobos da corte do rei momo que o seu povo elegeu.
É um fartar vilanagem de erros de cálculo, de inconfidências de bradar aos céus por parte dos seus antigos colaboradores, de falsos alarmes que descontraem em demasia ou de dentadas num traseiro que ninguém cuida de vigiar.
É CIAneto para um presidente em agonia nas sondagens.
E devem ser um dos mais hilariantes motivos de galhofa para um homem “do ofício” como Putin.
Que por acaso, se calhar outro galo cantaria, só aterrou no Kremlin depois da Cortina de Ferro se transformar num véu de (aparente) cetim…
Publicado por sharkinho às 06:32 PM | Comentários (16) | TrackBack

A mesma igreja (com minúscula, sim) que recusou um enterro religioso ao Piergiorgio nem hesitou em participar de forma empenhada no do Augusto, dias antes.
Assim se vê a (pouca) força do JC (nas mentes obscuras e hipócritas por detrás dos altares de fachada)...
Publicado por sharkinho às 02:05 PM | Comentários (9)

Um dos destaques da manhã noticiosa é a revelação de que neste Natal os consumidores estão a usar mais dinheiro vivo e menos cartões de crédito.
Olha a novidade...
As lojas do chinês não aceitam visa...
Publicado por sharkinho às 09:23 AM | Comentários (5)

Foto: Shark
Reparei no teu olhar perdido, o tempo esquecido na manhã de outro dia igual ao anterior.
E receio por instinto que um dia também me falte o amor, aquele de que abdicaste quando finalmente aceitaste a sina que te leu a cigana na palma das mãos que há muito não tocam outro rosto que não o teu.
A tua expressão zangada, represália pela vida alheada de uma presença que não lograste feliz. A indiferença de quem passa diante do teu nariz e te faz sentir transparente, inferior, destroço de gente que não interessa reparar.
A multidão a passar, hora de ponta, e o teu tempo esquecido no turbilhão de uma bebedeira. Anestesias uma vida inteira, esgotada a resistência à dor que o passado te deixou quando o cenário mudou e reparaste finalmente que já nada existia em teu redor daquilo que tinhas por sagrado mas foste desleixado e deixaste escapar.
Arrependimento de nada serviu. Essa vida partiu e tu juntas os cacos da alma com andrajos da consciência atolada de mágoa e com cola fingida da solidão que insistes cuspir mas não te larga da mão.
A tua companhia derradeira, no final de uma vida quase inteira a escorraçar quem te quis bem. Os filhos primeiro e logo depois a mãe, saturados da tua atitude quando estavas na plenitude da capacidade que decidiste desperdiçar.
Agora sentes vontade de amar, mas vê-se que entendes ser tarde demais.
Sentado num banco qualquer, à espera de coisa nenhuma. A esmola que vier de outro carro que alguém estaciona. A decadência que te aprisionou e agora te corrompe aos poucos a vontade e te exibe a verdade que tentas ocultar.
Nas costas de um espelho onde refugias esse olhar.
Porque recusas a imagem do homem que pelo caminho se perdeu.
E mergulhas numa viagem sem destino que o tempo há muito esqueceu.
Publicado por sharkinho às 12:46 PM | Comentários (29)

Há muito tempo que não pousava a vista num jornal desportivo.
De resto, o meu divórcio com os jornais desportivos começou quando topei a “panelinha” de silêncios comprometedores que denuncia uma relação pouco saudável entre os jornalistas e o lado sórdido dos bastidores do futebol.
Ainda assim, retive alguns tópicos que no meu entender prenunciam o fim do fenómeno futebolístico em Portugal tal como o conhecemos até agora.
O Miguel Sousa Tavares, insigne adepto do FCP, deixou cair o dragão-mor. Sugere até o pedido de demissão de Pinto da Costa.
Coerente e louvável.
Um juiz daqueles que tiveram a desdita de se deixarem atrair para um mundo que sistematicamente os conspurca revelou, na sequência do episódio Carolina, que uma jornalista serviu de pombo-correio para uma ameaça velada por parte de um árbitro internacional ainda no activo.
De acordo com o juiz, cujo nome me escapa, estaria em causa um tratamento semelhante ao aplicado a um autarca de Gondomar que fala demais.
O silêncio é de ouro no decrépito planeta do futebol de tasca.
Ainda n’A Bola encontrei um trabalho meritório do Delgado (um dos futebolistas menos matarruanos que passaram pelos relvados portugueses nas duas últimas décadas) acerca da agonia aritmética dos nossos estádios.
Diz ele que nem chegou a trinta mil o número de espectadores que assistiram ao vivo a um total de oito partidas da última jornada da Liga. E mais: o jogo mais presenciado do campeonato nacional teve pouco maior assistência do que o menos frequentado do campeonato escocês.
Levantam-se diversas questões de imediato, nomeadamente de onde virá agora aquilo com que se compram os (caríssimos) melões que o futebol movimenta.
Se não é das receitas de bilheteira, só pode vir da alienação do património dos clubes e da publicidade (televisiva).
Junte-se estes dois ingredientes e some-se o impacto devastador de um estádio vazio no empenho dos protagonistas e temos a receita ideal para equiparar num futuro próximo o futebol português ao voleibol de praia.
E tanto estádio xpto que o Europeu nos ofereceu…
Mas o tema futebol também atraiu a minha atenção quando, durante a minha hora de almoço, reparei que o noticiário da RTP (o alegado serviço público de televisão) estava a dar muito mais tempo de antena ao desporto rei do que se justificaria numa quarta-feira sem competições intercalares (demasiado distante dos jogos já disputados e dos ainda por disputar).
Tentei perceber que tipo de assunto encheria o chouriço na dinâmica pimba que os telejornais vêm assumindo (fait divers, futebol e, a fechar, a inevitável passagem de modelos ocorrida algures – excepção feita aos primeiros dias de cada ano onde levamos sempre com imagens do fogo de artifício de Sydney e de Tóquio).
E percebi. Fiquei a saber que Portugal é um país tão desinteressante do ponto de vista da cobertura noticiosa que a RTP teve que nos informar que o Aloísio, um futebolista brasileiro que representou o Futebol Clube do Porto há não sei quantos anos atrás, é o novo treinador do Vila Meã.
Do Vila Meã, imagine-se. Ora, se o Aloísio já arrumou as botas há tempo suficiente para ser tão relevante como o Seninho ou o Teófilo Cubillas não é ele o enfoque da notícia.
Por outro lado, o Vila Meã, certamente um clube cheio de mérito mas pertencente aos escalões secundários do futebol luso, não constitui nestes dias um foco de atenção da audiência televisiva (mesmo a que liga alguma importância ao futebol). Também não é por aí que se mobiliza uma equipa de reportagem…
Então o assunto só pode ser o FCP, o clube que o tal Aloísio representou ao longo de umas épocas do passado (que em matéria de futebol só assume relevância para nós benfiquistas, os outros podem concentrar-se nas suas glórias do presente e nas expectativas do futuro).
Alguém adivinha porque é que tudo o que possa ser relacionado com o Porto, mesmo o novo treinador do Vila Meã, constitui nesta altura uma prioridade para os tontinhos que desenham a agenda dos telejornais? Aposto que Ela, Carolina sabe…
Publicado por sharkinho às 10:46 AM | Comentários (2)
Foto: Shark
Onde acabam aquelas estradas, autênticos caminhos de cabras que pisamos no ponto de intersecção?
Porque nos coloca num cruzamento, indecisão, o capricho do acaso que nos transforma em marionetas?
E restam poucas escolhas certas relativamente ao melhor rumo a tomar.
E a vida, caprichosa, gosta muito de brincar. Connosco, gente que sente vontade de gerir o seu destino e afinal é um desatino dar de trombas a toda a hora com as escolhas mal feitas originadas pela imprecisão dos mecanismos ao nosso dispor.
Cegamos pelo amor e por outras coisas também. Tentamos ser perfeitos e descobrimo-nos filhos da mãe, apanhados em contra-pé pelo exagero das expectativas criadas.
As vidas desperdiçadas na deambulação, o sentido de orientação inexistente. Acabamos perdidos no meio de tanta gente, confinados ao percurso aleatório de um rebanho qualquer. Ninguém nos diz o que fazer no severo manual da sobrevivência social, apenas ensinam a decifrar o capítulo das exclusões. Ter consciência das vedações instaladas na pastagem, rasgada a paisagem pelo arame farpado proibicionista.
Um espaço limitado pela gestão equilibrista num ponto qualquer da pirâmide em que nos posicionamos, hierarquia, por aquilo que nos acham ou pelo talento para nos sabermos vender. A imagem. E o poder. O dinheiro que nos compra um espacinho maior, estatuto, mais acima de alguém. A corrida desenfreada da felicidade desbaratada no imobiliário das influências, o topo das preferências ambicionado por igual.
O que temos, o que somos. O que seremos e o que no balanço ficará por fazer. Esquecemo-nos de dizer às pessoas que as amamos enquanto desertamos no meio da fuga em frente aos medos que nos incutiram tempos atrás. Passa palavra, sexo é pecado, estar bem instalado num tacho que nada fazemos por merecer. Sempre a aprender as regras do jogo que só muda no tom.
As mesmas premissas idiotas, as festas janotas para disfarçar a tristeza e substituir a franqueza com que poderíamos desabafar as nossas preocupações.
Ocultamos as limitações que fragilizam perante as ameaças do exterior. Maquilhamos o valor para que nos aceitem tal e qual a sua própria pintura, inflados como balões, sobreavaliados. E afinal desesperados, a maioria, por nos vermos apanhados pela correria global. Incapazes de combater o sistema que nos trai, drenada a energia da única fonte de alimentação interior.
A falta de amor e da amizade também.
Uns filhos da mãe, presumidos inocentes.
Mas sempre conscientes do erro colossal.
O tempo na ampulheta, é mais do que certo, nesta estúpida travessia do deserto num imenso areal, vai escoar-se de repente.
Só aí nos arrependemos.
Quando nos escapa por entre os dedos da mão aquele que percebemos ser o último grão.
Publicado por sharkinho às 03:51 PM | Comentários (30)

No país do faz de conta que ninguém vê, uma fulana provavelmente despeitada decide meter a boca no trombone. Escreve(?) um livro, não faz a coisa por menos, e conta a toda a gente um crime no qual foi conivente e silenciou até lhe dar na bolha.
Ora bem: a pessoa em causa assume-se pagadora de um serviço prestado a outrem. Esse serviço constava de um espancamento a um autarca como castigo por denúncias suas que entalavam o mandante da vingança a que a senhora, agora devidamente sacralizada pela confissão pública da sua baixeza, deu seguimento.
Posto isto (por escrito e com ampla cobertura mediática) temos um cenário curioso.
E não estou a falar da curiosidade de nenhuma investigação ter apurado o que a cúmplice agora revelou, mas sim do cenário previsível para o futuro desta situação.
Temos um agredido. Temos um mandante identificado. Temos uma cúmplice directamente implicada por confissão pública (o que, por inerência, garante que teremos conhecimento da identidade de quem executou a “sentença” mafiosa).
Temos mais uma vergonha impune (e muito lucrativa para a denunciante) na forja.
É o país que temos.
Publicado por sharkinho às 04:26 PM | Comentários (4)

Foto: Shark
Agora mesmo, na Dois, uma fulana popularucha chamada Ana Brito e Cunha (só com uma das grandes podia chegar ali, considerando a sua intervenção) dissertava acerca das relações Portugal-Espanha na sequência de um sketch do programa A Revolta dos Pastéis de Nata.
O apresentador referia a proliferação de empresas espanholas em Portugal, por contraponto à inversa.
E a Aninhas, muito gira sei lá, a avançar para as câmaras com a sua explicação indignada para contrapor à paródia "xenófoba": a Espanha é duas vezes maior do que Portugal...
Bruá na assistência e o apresentador a não conter o riso. "Duas?" - perguntou ele a dar uma goela à Aninhas, muito gira sei lá, para emendar a calinada.
E ela: duas ou três.
E repetiu: "Duas ou três".
O apresentador teve misericórdia e deixou-a prosseguir sem se desmanchar às gargalhadas.
Eu não.
Fica aqui o registo, para memória futura.
(Já agora, who the fuck is Ana Brito e Cunha?)
Publicado por sharkinho às 07:46 PM | Comentários (8)

Desde pequeno dou atenção à publicidade e parece-me que não sou o único, a avaliar pela forma como alguns anúncios se agarram às tolas da malta durante décadas.
Estou a exagerar? “Dundum é o fim!” (Digam lá se não se lembram da música associada?). “Claro que fico chateado!” (Nunca usaram esta expressão com o mesmo tom do Ricardo?).
E não preciso de ser mais exaustivo. São muitos os spots que se agarram a nós como lapas e até servem para nos referenciar momentos do passado que incluíam a publicidade aos produtos mais badalados de cada época.
É a prova mais simples da importância que a publicidade conquistou na sociedade da minha geração e mantém na que lhe sucedeu.
Por isso continuo a observar a publicidade e a ver como ela reflecte em boa medida cada tempo que se anuncia, tal como denuncia o perfil do consumidor de cada época. A pasta medicinal Couto (que andava na boca de toda a gente) e o restaurador Olex (um preto de cabelo louro ou um branco de carapinha) são espelhos do tempo em que se popularizaram na então relativamente jovem têvê.
Agora basta uma vista de olhos nos cromos da bola (o Abel Xavier) ou da música (o Marco Paulo dos primeiros dias) para encontrarmos aquilo que os criativos da altura consideravam uma impossibilidade (uma aberração?).
E os publicitários já não são descarados a impingirem os produtos associando-os à capacidade de girar uma cadeira pelo ar, presa pelos dentes de um malabarista.
Contudo, é flagrante a forma como, por exemplo, as grandes superfícies tipificavam tempos atrás os seus alvos de mercado como uns imbecis ou totós. Tal como é claro na nova campanha da Tv Cabo (por €15,50/mês uma família desertora, incluindo a empregada doméstica - cujo sotaque nortenho é obsoleto e deveria ser mais em tons tovarich…) e na inefável Dareway (um veículo farsola que é anunciado por dois fedelhos “cheios de classe”, vestidos e maquilhados como uma dupla gótica) que os tempos são outros e a publicidade abardinou.
E por abardinou quero mesmo dizer avacalhou, sendo hoje possível assistir mais do que nunca a anúncios dos quais ninguém percebe o alcance, a outros que nos deixam atónitos pelo teor paupérrimo da sua concepção e a alguns que vendem mensagens com pouco de politicamente correcto – não são raras as ocasiões em que os publicitários “remodelam” os seus spots depois de se aperceberem da estupidez e da falta de bom gosto neles reflectida.
Vejam a nova e insistente campanha de natal da TMN, por exemplo. A vanguarda da piroseira móvel, sem pés nem cabeça, num ambiente pseudo-futurista e descaradamente desprovido de uma imaginação coerente com a inteligência de quem produziu algo que bombardeia os telespectadores em doses intoleráveis.
Ou mesmo a da concorrente Vodafone, ainda a explorar o “filão” dos gajos roucos de tanto falar mas com um spot baseado nos Reis Magos que, francamente, a mim não convenceu a comprar seja o que for.
Claro que o objectivo destes colossos das comunicações é cravar-nos o logótipo na mona como se fossemos vacas acéfalas no curral consumista. Mas não vejo porque desperdiçam recursos a massacrar as audiências com cenas idiotas quando podem seguir excelentes exemplos da publicidade que vemos ganhar concursos lá fora. Como alguns a que temos o prazer de assistir, baseados numa estética agradável e apelativa ou numa abordagem inteligente que nos leva a comprar a ideia sem abdicar do nosso bom gosto. E não estou necessariamente a falar das pernas da polaca loura que transformou a Pluma da Galp na bilha mais leve e memorável da publicidade portuguesa.
Onde quero eu chegar com esta palheta toda? Ao facto de ser um desperdício a forma como (uma parte d)os criativos não possuem ou deixam que os anunciantes lhes restrinjam a capacidade de anunciar com brio, com respeito por quem vai levar com o resultado do seu trabalho a cada esquina e em quase todos os pontos onde nos pousa a vista.
É que no meio das dezenas de spots que as televisões me impõem nos intervalos das suas séries, filmes, ou programas chachada da moda não encontro mais do que meia dúzia concebidos com aquele cuidado e talento que me fizeram fixar até hoje a Bic laranja mais a Bic cristal ou os fechos de correr Polylon (que já entalavam pilas há mais de trinta anos).
E sempre gostava de perguntar na cara do gajo que criou a Leopoldina, um pássaro vestido à fiel de armazém, se ele acredita que aquilo é uma referência decente para o Natal dos ávidos aprendizes de consumista que estamos a criar nesta altura.
Publicado por sharkinho às 06:58 PM | Comentários (5)
Estavam casados há uns anos e a coisa não resultou. Cada um para o seu lado, o dia ganho pelo advogado no litígio que depressa assumiu o descontrolo da situação. O costume, em boa parte das relações conjugais que se apagam como velas ainda cheias de cera e de pavio. Sopradas pelo vendaval da discussão.
Foi ela quem saiu, coisa rara, e não cuidou de alterar a morada nos contratos que só a si interessavam. O seguro do carro, por exemplo. Cujo aviso de pagamento ele terá recebido na caixa de correio que ambos partilharam enquanto a harmonia reinou. Tudo se esfumou ao vento, as coisas boas também, tábua rasa. O aviso não chegou às mãos a que se destinava e o seguro caducou.
Ela não reparou até ao dia em que se viu culpada de um acidente de viação.
O ex, que terá talvez todas as razões válidas para a odiar (e nem isso justificaria um acto/omissão tão irresponsável), comportou-se de uma forma ingrata, infantil e leviana. Canalha, se quiserem. E é fácil de ver porquê.
As relações entre as pessoas são difíceis de manter, sobretudo quando às diferenças se somam as divergências, o despertar sem maquilhagem, o wc partilhado e o fim do amor ou da pachorra. Por isso as relações podem acabar, de uma forma tão natural como começaram. E entretanto acontecem uma data de coisas boas e outra data de coisas más.
Nenhuma delas pode justificar o risco de mandar alguém que um dia no passado uniu o destino com o seu, a fé que nos move até que a vida os separe, para uma armadilha que pode implicar coima pesada, apreensão do veículo e, se as coisas correrem mesmo mal, uma pena de prisão.
Não consigo encontrar sentido numa "vingança" assim.
Gosto de pessoas. Mas ele há dias...
Publicado por sharkinho às 01:44 AM | Comentários (12)
Como se previa, Hugo Chavez foi reeleito. E também seria fácil de antever a dor cotovelar da direita reaccionária (e saloia) que, como é tradição, excita o paleio ao ponto de evidenciar uma “cultura democrática” que oscila entre o bronco clássico e o pseudo-fascista refinado.
Nem costumo enveredar pelo discurso mais radical, até porque pouco me ralo com as idiossincrasias alheias quando estas não passam de vozes incapazes de atingirem o céu.
Porém, o exagero boçal em que a direita reaccionária (e saloia) incorre quando sofre um desgosto daqueles que os povos que votam (uma chatice, pois é) sabem proporcionar, nomeadamente a fantochada pictórica com associações de ideias próprias de uma visão política Neandertal, obriga-me a puxar pelos galões da esquerdalha e dar-lhes no toutiço sem misericórdia.
Hugo Chavez foi reeleito. Ou seja, governou e a maioria do seu povo entendeu que governou bem.
Obteve mais de sessenta por cento dos votos contados. Quer isto dizer que o candidato derrotado nem tem margem de manobra para contestar os resultados com base na habitual alegação de fraude na contagem.
E foi sistematicamente atacado por uma Imprensa hostil, o que em qualquer ponto do mundo pode influenciar sobremaneira o pendor de uma eleição. O que implica duas coisas: a liberdade de expressão concedida à Comunicação Social venezuelana e a politização do eleitorado que não se deixou manobrar.
Por tudo isto, irrita-me a boçalidade má perdedora da direita reaccionária (e saloia) que vai longe demais nos seus considerandos e nas suas brincadeiras de mau gosto, trocadilhos parvalhões e afins, quando se refere a um processo democrático sem mácula que resistiu, entre outras pressões directas e indirectas, às manobras de bastidores que os sequazes de mister danger sempre orquestram e financiam.
E também à influência interna de grupos tão poderosos (sobretudo numerosos) como a comunidade portuguesa radicada (instalada) naquele país.
Comparar Hugo Chavez a símbolos históricos da ditadura, pegando pelos papões de algo que não se verifica de todo (o homem foi eleito democraticamente e até a um golpe de estado resistiu, porra!) é típico das mentalidadezinhas medíocres que prefeririam uma América Latina dominada por canalhas tiranos como o fóssil decrépito que (ainda não foi desta) tarda em prestar contas com o Criador pelas três mil vidas que a sua falange assassina dizimou.
A direita reaccionária sonsa (e saloia) não sabe perder e possui uma visão muito periférica destas questões da democracia que tanto os incomoda porque raramente beneficia as suas concepções de como uma sociedade se deve gerir.
O fascismo encapotado, hipócrita, tem destas debilidades. Quando a coisa dá pró torto, as baratas tontas começam logo a destapar as suas essências camufladas e revelam a propensão para o disparate nos argumentos e para a desorientação nas atitudes que lhes desmascaram a postura impostora por detrás da bonomia de um discurso aparentemente equilibrado e cordial.
Quarenta e oito anos deixam marcas, pois é…
Publicado por sharkinho às 11:44 AM | Comentários (9)

Já tresanda. A inauguração oficial da maior árvore, barulho das luzes, e o ressurgimento da Leopoldina, a iluminação artificial das ruas e o massacre dos anúncios a bonecas com telemóvel e a telemóveis com bonecos mais os folhetos em barda na caixa do correio em vez dos postais que caíram em desuso. A tensão crescente de ver o subsídio a escoar-se nas mazelas do Verão à rica enquanto se aproxima o momento inevitável de enfrentar a multidão apressada das compras de última hora.
Pelo meio, os poucos que tentam relembrar a malta que não foi o pai natal quem nasceu nesse dia cada vez mais coke e ainda menos os que se esforçam por cultivar um espírito da coisa que não aceita visa ou mastercard.
Entro sempre em conflito interior nesta quadra natalício-consumista que parece desenhada para se autodestruir em labaredas de saturação. Gosto do pretexto que o Natal oferece para sermos todos um nadinha diferentes, um pouquinho melhores do que no resto do ano em que a vida nos absorve num galope desenfreado que não deixa espaço para nada ou ninguém. E desgosto assistir à cedência colectiva a toda a pressão comercial que desaba nos ombros fatigados da maioria de nós.
Para muitos a coisa coloca-se em termos próximos do martírio. “Tenho que dar uma prenda a fulano porque ele deu-me uma treta qualquer no ano passado. E outra a sicrano porque é um gajo importante na organização que me fez um favor. E o puto quer uma consola xpto e estão esgotadas. E não posso esquecer-me do par de peúgas para cumprir o ritual.”
Ala que eles aí vão para os hipermercados, para as lojas de rua, “sim, é para oferecer”, as lâmpadas novas para a árvore, com música, compradas na loja do chinês em conjunto com as oferendas baratas para cumprir calendário na consoada embrulhada de um vizinho ou de um amigo afinal só “conhecido” que se presenteia quase por obrigação.
A generosidade imposta por oposição ao clima de festa desinteressada, o sorriso espontâneo (que deveria contagiar os cristãos como os ateus) convertido num esgar de desagrado pelo frete de ter que ir comprar.
Os natais dos hospitais e coitadinhos dos pobrezinhos, as reportagens da praxe acerca das vidas geladas na marginalidade de um universo paralelo, desabrigadas em caixas de papelão. As sopinhas que lhes dão, para borrifar um pouco de humanidade na rotina da cidade que os ignora um ano inteiro e agora esbanja o dinheiro numa farsa mercantil.
Não é esse o meu natal, embora baste uma filha para me ver enredado de alguma forma nos brinquedos da moda que a bombardeiam nos seus canais de televisão. O medo de a fazer sentir-se inferiorizada relativamente aos amigos e colegas, vaidosos de pequeninos com o seu karaoke da floribella e outros sinais exteriores da riqueza que um dia irão alardear como os progenitores.
A herança que deixamos da banalização que alimentamos com a nossa incapacidade para impor aquilo que se sabe ser mais bonito mas não encaixa no absurdo em que a nossa vida se tornou.
Um grande galo, e não falo da missa, não conseguirmos ignorar uma tristeza mansa que se instala discreta no meio da confusão na mente anestesiada pela pressão que nos afasta dos mais importantes ideais.
Hipotecamos os nossos natais no crédito ao consumo que os comprou algures, carregamos essa cruz.
Talvez acabemos um dia com a alma pendurada no prego da loja de penhores, mesmo ao lado da efígie empoeirada de um tal de Jesus.
Publicado por sharkinho às 11:14 AM | Comentários (8)
In “TVI pelo aborto”, por Rui Castro, Blogue do Não.
Escolhi este pedaço de argumentação, mas não faltaria por onde pegar. O blogue do não, um espaço livre de exposição dos pontos de vista dos adeptos da criminalização do aborto, é a face visível da bonomia cristã no folclore costumeiro sempre que a questão se coloca.
Não é preciso dissecar o post para nele encontrar a sensatez e o rigor com que os “defensores da vida” (entre aspas para frisar a ironia implícita em defender a vida por nascer, considerando um nojo denunciar a morte desnecessária de quem a perdeu por culpa da clandestinidade que a legislação impõe) revelam o tipo de campanha que já estão a fazer.
O autor deste desabafo tão self explained esclarece-nos logo na segunda frase a sua condição de telespectador chocado, ao ponto de se interrogar se o programa que (alegadamente) viu de manhã é de facto matinal.
E segue no seu tom cordato e estimulador de um diálogo em clima de paz referindo-se à situação em causa como “miséria humana”. Um “verdadeiro nojo”, como o autor salienta, esta utilização da verdade dos factos que se converte automaticamente (na perspectiva dos que renegam as evidências) num acto de campanha pelo sim.
Faço campanha pelo NIM. Isto porque me assumo no lado oposto da barricada que o dito blogue representa, sem no entanto pactuar com a tradicional e tendenciosa distinção dos que estão contra o aborto e dos que estão “a favor”.
Eu não estou a favor e tenho quase a certeza de que a “miséria humana” que o Manuel Luís Goucha terá identificado no seu programa também não estaria. Ninguém no seu juízo perfeito está a favor do aborto, sobretudo se já passou por tal experiência.
E é essa “subtil” colocação dos “a favor” da coisa por oposição aos que estão “contra” que me impede de assumir o SIM como a minha resposta inequívoca (que votarei) à questão a referendar.
Os canais de televisão, independentemente de quem forem os seus accionistas, são Órgãos de Comunicação Social e possuem por inerência o direito (e o dever) de exibirem os factos mesmo quando estes enojam os que pretendem ignorá-los. Faz parte da crueldade que a liberdade de expressão encerra para quem prefere abafar a realidade no lodaçal do que se sabe que existe mas que se prefere remetido para a masmorra do silêncio pueril.
E acredito que é (também) em nome desse silêncio conveniente que os “defensores da vida” se insurgem contra uma alteração legislativa que evite adicionar a carga de um processo crime aos vários medos que as mulheres se vêem obrigadas a enfrentar nessas circunstâncias. Os medos, as vergonhas e os riscos concretos que o Manuel Luís Goucha terá exposto ao olhar de quem os prefere ignorados.
Se a actual legislação fosse adequada, como defendem os Nãos, o problema estaria resolvido e os canais televisivos não teriam estes exemplos de “miséria humana” para citar. É que é fácil proibir (mantendo ilegal) mas o tempo que entretanto decorreu não nos deu provas de que tenham sido criadas soluções, as verdadeiras contraditas, as alternativas concretas para quem se vê a braços com um problema bem real cuja resolução, em última análise, foi Deus, que inspira a posição da maioria dos “contras”, quem decidiu bem ou mal confiar às suas controversas criações.
Às “boas” e às “más”…
Publicado por sharkinho às 12:16 PM | Comentários (16)

Já me preocupei mais com estas coisas, mas continua a incomodar-me a forma como muitas pessoas abraçam a falta de ética sem qualquer espécie de hesitação.
Isto a propósito de uma reunião de negócios na qual participei neste fim-de-semana cheio de obrigações, onde me confrontei mais uma vez com a arrogância e o desplante com que a malta do papel assume os seus esquemas marados para intrujar os incautos e os pobres de espírito.
Confesso que tinha comprado a ideia, quando numa primeira abordagem me forneceram a informação essencial acerca do que estava em causa. Nessa altura, por delicadeza, não coloquei qualquer questão e concentrei-me nos aspectos financeiros e de natureza prática. Soou-me demasiado simples, confesso, mas acreditei que a reunião seguinte traria a lume as questões de pormenor.
E trouxe, de facto, mas não com a frontalidade que esperava e de modo algum com os contornos que um negócio sério deve possuir.
O negócio, afinal, é explorar a debilidade financeira e/ou psicológica dos cidadãos, explorando sem pudor a confiança que inspiram nas outras pessoas.
Foi a meio da reunião, que envolveu meia dúzia de pessoas, que alguém deixou escapar uma discreta inconfidência, um desabafo entre dentes que outrem silenciou com um gesto que não passou ao largo da minha atenção reforçada. Passei de moderadamente eufórico, descontraído o bastante para negligenciar algumas incongruências no discurso, a exageradamente atento a todos os sinais de alerta. E esses começaram a surgir em barda, logo que o meu cérebro esqueceu o “barulho das luzes” e, lucros cessantes, focou a sua missão nas tarefas defensivas.
Não tardei a somar dois mais dois, enquanto observava o comportamento dos restantes “parceiros” numa aventura comercial certamente lucrativa para alguns mas que não encaixa de todo no meu conceito de actividade legítima.
Passei então de observador participante a figura de corpo presente, uma mudança de atitude que não terá passado despercebida à organizadora do evento e principal interessada na minha “conversão” à causa que implicaria o empenho da minha influência junto de outros “sócios” potenciais para o negócio da china.
Não é algo que encare de ânimo leve, admito, dar a cara por algo em que não sinta os pés bem fincados no chão.
E mal acabou a reunião tomei nota das áreas menos claras de toda aquela concepção “milionária” que antes me soara tão simples e inteligente, tão feita à medida de quem vive há uns anos o papel de mercador.
Bastaram alguns minutos de raciocínio e outros tantos na exploração dos motores de busca. O embuste revelou-se em toda a sua dimensão.
A empresa sedeada num paraíso fiscal (economia paralela), a ausência de papéis, a omissão de uma sede física em Portugal (reduzindo a coisa a um site quase sem conteúdo) e a “importação” descabida de termos contratuais aplicados noutro país onde acabei por descobrir ter acontecido um colapso da “galinha dos ovos de ouro” que lesou um número inquantificável de empresários menos desconfiados do que eu.
Uma fraude concebida com base em esquemas já existentes, devidamente ornamentada com o glamour que trai qualquer pessoa crédula, ambiciosa e vulnerável aos números com dígitos dignos do euromilhões.
De acordo com quem decidiu meter a boca no trombone e se afirma vítima do esquema, os responsáveis pela instalação da cena no seu país piraram-se para o nosso quando a coisa descambou.
Por isso vos deixo um aviso muito simples: se alguém da vossa confiança insistir em vos arrastar para uma “oportunidade única” que se recuse a identificar nesse contacto e alegar estar na presença do “responsável pela entrada em Portugal de uma multinacional europeia”, desconfiem. E se querem um conselho amigo, recusem o convite e, das duas uma, abram os olhos a quem vos propuser o “negócio” ou abram os vossos e ponham-se a pau relativamente a quem se mostrou tão empenhado em vos enriquecer…
Publicado por sharkinho às 11:15 AM | Comentários (10)
Na zona onde trabalho os acidentes de viação acontecem com uma frequência anormal. E muitas vezes implicam a morte de pessoas.
Nos Olivais, a meio caminho entre o meu escritório e o local onde actualmente resido, um casal descarregava o porta-bagagens quando um (abstenho-me de escrever o que penso, para não radicalizar ainda mais a minha posição) condutor apressado os esmagou à vista das três filhas que os aguardavam no interior da viatura.
Isto aconteceu numa artéria secundária da capital, uma rua como qualquer outra onde tantas famílias descarregam os seus pertences sem temerem um fim abrupto como o que refiro acima. O condutor, cuja carta de condução acabará por lhe ser devolvida e poucas ou nenhumas consequências sofrerá na sequência da tragédia que a sua irresponsabilidade provocou, tentou fugir do local do crime à vista de agentes da PSP.
Ou seja, revelou uma baixeza de carácter e uma falta de capacidade para assumir os seus erros que deveriam bastar para nunca mais voltar a conduzir legalmente uma viatura. E caso fosse apanhado ao volante sem um título válido de condução deveria passar numa penitenciária o tempo necessário para aprender a lição. E o código da estrada que desrespeitou.
A zona oriental de Lisboa, próxima do autódromo Vasco da Gama, é um viveiro de street racers e os acidentes não acontecem por coincidência ou pelo mau estado das estradas. Acontecem pelo excesso de velocidade e pelo defeito de responsabilidade dos asnos que circulam num bairro habitacional como numa pista, inconscientes, tresloucados, assassinos potenciais.
Não existem paninhos quentes aplicáveis perante as circunstâncias em que o condutor (modera-te, Shark) acima literalmente desfez uma família.
Nem atenuantes para a ausência ou a passividade das autoridades que sabem, que ouvem o rugir dos motores e pouco ou nada fazem para acautelar a segurança das pessoas.
Este pesadelo não acaba porque não queremos. Damos carta branca por inerência, pois não protestamos, desculpabilizamos os bêbedos ao volante se forem nossos amigos ou familiares, aceitamos de forma passiva o medo que as estradas nos provocam e preferimos enfiar a cabeça na areia enquanto aguardamos a nossa vez ou a de alguém que amemos.
Fico fora de mim quando tomo conhecimento destas tragédias alarves, escusadas, absurdas.
E por isso aplaudo de pé a conjugação de esforços hoje anunciada entre estas duas organizações para combaterem uma parte do problema.
Publicado por sharkinho às 08:58 PM | Comentários (14)

Em poucos dias, os exércitos de Israel e do Sri Lanka assumiram “erros técnicos” que custaram a vida a 18 e a 45 pessoas, respectivamente, somando-lhe várias dezenas de estropiados.
Em ambos os casos, boa parte das vidas que se perderam eram de crianças. No caso singalês, tratava-se de uma escola o alvo do bombardeio por parte das tropas governamentais.
Numa época em que até pelo Google se conseguem obter imagens nítidas de qualquer ponto do planeta, estes erros de palmatória, crimes sem castigo, não têm justificação possível.
Ou têm, mas não a que mais abona a favor dos autores destas chacinas.
O exército israelita, sob a orientação eficaz dos seus serviços secretos, já por diversas vezes conseguiu eliminar com precisão cirúrgica indivíduos que se deslocavam num automóvel.
Isso pressupõe uma capacidade tecnológica e uma presença no terreno que invalidam as margens de “erro” constantemente invocadas pelos responsáveis impunes destas atrocidades (cada vez menos) mediáticas.
O exército singalês, cujo protagonismo macabro se verificou na própria nação que lhe compete proteger, não pode alegar a falta de conhecimento da localização de um estabelecimento de ensino.
Uma barragem de artilharia é uma operação que leva bastante tempo a preparar, requer uma logística complicada e envolve muita gente e muitos meios. É quase impossível acontecer um “erro” desta envergadura.
Em ambos os casos, tresanda a massacre deliberado, a ajuste de contas. Estes “equívocos”, cuja impunidade denuncia o cariz deliberado, visam apenas subir a parada na hedionda escalada que os dois conflitos têm revelado ao longo de décadas.
Se assim não fosse, rolariam cabeças e alguém teria que enfrentar a justiça pelas culpas inscritas no seu cartório.
Mas não é isso que se verifica. São “coisas que acontecem”, acasos que a estatística pode explicar se um governo sanguinário assim o entender.
Contudo, enquanto no Tribunal de Haia um congolês responde pela mobilização de crianças para a guerra, transmitindo ao mundo a noção de que é possível incriminar e sentenciar estes nojentos worldwide, ninguém levantará o dedo contra as altas patentes dos exércitos que acabam de ceifar mais esperança na sua sementeira de ódio.
Basta colocarmo-nos na pele dos irmãos e dos pais das crianças tamil e palestinianas que se viram obrigados a recolher os pedaços das meninas e dos meninos desfeitos pelas explosões “erradas”…
Estas exibições grotescas de infâmia servem para banalizar a morte, para a multiplicar ao ponto de ir empurrando os massacres para as páginas interiores dos jornais e para as referências discretas nos noticiários das rádios e das televisões.
E servem também para evidenciar a baixeza deste tipo de conflitos onde não têm explicação possível tais “erros” que nem numa guerra convencional se podem tolerar.
Não existem crianças de primeira e de segunda. O horror vive-se com a mesma intensidade em qualquer ponto do globo e deixa um rasto de dor e de sede de vingança que agudizam e eternizam estas manifestações do que os seres humanos revelam de pior.
Ainda mais cruel do que permitir que estas coisas aconteçam é consentir que a sua repetição sistemática as torne menos pérfidas aos olhos de quem as observa a prudente distância, (por ora) imune às respectivas repercussões.
À factura pesada que o futuro não deixará de nos apresentar por estes “erros” sem perdão.
Publicado por sharkinho às 09:56 AM

A sensação é parecida com a de assistirmos a uma final do campeonato do mundo entre duas selecções estrangeiras. Torcemos sem entusiasmo pela menos má, pois a nossa não está lá e a coisa tem mais piada quando pendemos mais para um dos lados da questão.
Porém, nunca deixamos de ter a noção de que na prática tanto faz se ganha a equipa B ou a equipa A. Pouco nos interessa.
A nossa não está lá e por isso não pinta nada, como as outras que assistem na bancada.
Ficou pelo caminho algures, a relevância de Portugal, ao longo da complicada História desta competição milionária global.
Publicado por sharkinho às 09:57 AM
É óbvio que não devem enforcá-lo.
Vão provocar um rombo cruel e desnecessário no cada vez mais escasso contingente de virgens...
Publicado por sharkinho às 10:02 AM

Muitos gostam de o comparar ao Holocausto, pelos contornos. Eu acho isso errado, pois soa a desculpa de mau pagador, a falso alívio de consciência pelo retrato de algo de similar acontecido aos europeus (ocidentais).
A realidade de Darfur, (mais) um genocídio sistemático de pessoas a que mesmo os noticiários voltam a cara para o lado oposto, é terrivelmente mais cruel do que a sofrida pelos Judeus às mãos dos nazis. E a reacção do resto do mundo é, seguramente, mais hipócrita.
A crueldade de que vos falo reside no facto de hoje, o momento em que acontece a chacina e a tortura de milhares de pessoas, existirem uma data de mecanismos de que o mundo da II Guerra Mundial não podia valer-se para pôr fim a uma indignidade colossal.
Hoje, o mundo dispõe da Organização das Nações Unidas, de comunicações muito mais eficazes (Imprensa, Internet), de exemplos a não seguir, de força bélica para destituir qualquer líder sanguinário pela força (excepto nos Estados Unidos da América, a menos que seja por via económica. E mesmo aí…).
E o mundo não intervém.
Enquanto escrevo estas linhas é bem provável que mais algumas aldeias tenham sido arrasadas, as mulheres violadas, os homens assassinados e as crianças sobreviventes a engrossarem a gigantesca fila de espera para a morte por inanição.
É disso que estou a falar nesta posta. De um pedaço do nosso planeta onde um governo ditatorial executa uma limpeza étnica com o conhecimento (e o inerente beneplácito) global.
Todos de olhos fechados, a vida continua, enquanto pessoas sofrem horrores que um terço das tropas estacionadas no Iraque e no Afeganistão bastariam para impedir.
Não tem comparação possível com o Holocausto, por muito que os historiadores contemporâneos alinhem na versão que aos políticos mais interessa. Como interessa aos cidadãos comuns, todos nós que não vivemos na pele (mais escura mas de sangue igual ao que nos corre nas veias) de quem padece algures, a quem incomoda viver com tais pesos distantes na consciência.
“Aquilo é em África, lá acontece a toda a hora.”
Mas não devia.
E compete-nos evitar que assim seja. Como? Pressionando cada Governo de cada país para que utilize os seus dispendiosos recursos em termos de política externa (diplomatas, militares, etc.) no sentido de pressionar quem efectivamente dita as regras numa ONU refém da injecção dos dólares que a sustentam. Intervindo pelos meios ao nosso alcance para incutir vergonha na cara e na atitude de quem nos representa nessas matérias. Rejeitando esta doutrina do deixa andar (deixa morrer) que nos vai sair cara num futuro tão pouco distante que já se faz sentir em diversas fronteiras europeias.
Num futuro que se desenha pouco favorável nas descrições vindouras do quanto de hediondo as gerações que ocuparam a Terra neste período fizeram ou permitiram.
Num tempo que só pode registar-se na História como o mais negligente que a Humanidade conheceu.
Publicado por sharkinho às 11:42 PM | Comentários (4)

Foto: Shark
Por opção consciente, porque não tenciono criar uma “princesinha” burguesa que apenas conheça a vida folgada da classe média com posses, inscrevi a minha filha no Ensino Público. Por isso e porque entendo que o Estado tem a obrigação de gerir os cerca de dez mil euros de impostos que me saca sem apelo em cada ano, criando as condições necessárias para que ela receba uma formação escolar decente.
Não cria.
E as recentes “inovações” que visam assegurar a permanência das crianças nos estabelecimentos de ensino até às 17:30h, aliviando os pais da pressão e do encargo de encontrar soluções para ocupar o tempo dos miúdos, não funcionam.
Pelo menos na Escola Básica que a minha filha frequenta.
Em causa está um período de tempo cuja gestão, antes cuidada pelas Juntas de Freguesia, foi agora entregue às Câmaras Municipais. E a de Lisboa, um buraco negro sorvedouro de dinheiro, não está a honrar o seu compromisso financeiro e deixa os monitores de Educação Física, Música e Inglês sem receberem os seus vencimentos. O resultado é óbvio. Os monitores não recebem e baldam-se. Mais de cem crianças ficam assim “penduradas” ao longo de mais de uma hora no interior de uma escola, vigiadas por apenas um adulto e sem um espaço coberto onde possam ao menos brincar nos dias chuvosos.
O mais caricato é o facto de os pais, mesmo sabendo que os seus educandos se encontram nessas condições e mesmo podendo observar os filhos a partir do lado de fora das vedações, não podem ir buscá-los à escola antecipadamente pois os responsáveis da mesma recusam abrir os portões de acesso ao longo do período em causa, invocando questões de segurança (alegadamente porque não dispõem de pessoal em número suficiente para acautelarem os acessos) .
Neste contexto, é fácil de entender que professores e auxiliares têm todo o interesse em boicotar a boa intenção do Ministério pois sobram para eles, sem qualquer retribuição, a responsabilidade e o trabalho acrescidos. E no meio estão as crianças, encurraladas num espaço sem condições adequadas para esta época do ano e à mercê dos desígnios da sorte, e os pais, entalados entre a decisão de encontrarem alternativas externas (caras) e baixarem os braços perante a inépcia do Estado em controlar as autarquias, ou arriscarem deixar as crianças em circunstâncias nada tranquilizadoras.
A terceira alternativa, a mais correcta e que tem em conta os pais cuja situação financeira e/ou laboral nem lhes permita escolhas, é pressionar o Ministério da Educação e todas as entidades ligadas a mais esta exibição do país de treta que estamos a permitir, no sentido de assumirem os seus compromissos ou, no mínimo, de imporem às Câmaras Municipais o honrar daqueles que em má hora lhes delegaram.
Não é fácil pugnar por quaisquer direitos numa nação de irresponsáveis, de muros de betão que delimitam os seus feudos e as suas regalias por detrás de uma postura que nunca tem em conta os interesses alheios. São instituições e pessoas herméticas, sempre lestas a sacudirem a água para o capote alheio enquanto se aguarda que o pior aconteça para alguém ter que tomar decisões drásticas nas quais, por norma, nunca cabe a punição exemplar dos verdadeiros culpados dessas broncas que podem custar muito caras a crianças entre os seis e os dez anos de idade.
Contudo, como encarregado de educação e como pai, não posso confiar a terceiros desta laia a segurança da minha filha e resta-me, no âmbito da Associação de Pais ou por iniciativa própria, encostar à parede todos quantos possuam a autoridade para resolver a situação, ainda que isso me possa custar muito tempo e neuras constantes a que os meus impostos deveriam bastar para me pouparem.
Os impostos e a seita de incompetentes que minam pela raiz o futuro que os nossos herdeiros merecem num país onde cada vez menos há esperança num amanhã em condições.
E isso explica em boa medida o facto de nos últimos anos serem mais as saídas do que as entradas nas estatísticas dos fluxos migratórios nas fronteiras portuguesas.
Publicado por sharkinho às 11:40 AM | Comentários (13)
De acordo com a Imprensa de hoje, Portugal será um dos países mais afectados pelas alterações climatéricas.
Contudo, somos também das nações mais bem preparadas para enfrentar a consequente desertificação (se tivermos em conta o facto de sermos dos maiores camelos em matéria de política ambiental...).
Por outro lado, estudos indicam no pior cenário concebível serão quatro milhões os portugueses afectados por uma eventual pandemia da gripe da aves.
Também aqui não vale a pena preocuparmo-nos em demasia, pois o rosto que o Governo escolheu para anunciar esta macabra previsão é o mesmo que exibiu a propósito da barraca em matéria de escassez de vacinas para a gripe comum...
Publicado por sharkinho às 10:01 AM
...Quando lhe falam em lubrificantes e a primeira coisa que lhe ocorre é marcar a revisão do carro.
Publicado por sharkinho às 11:46 AM

Foto: Shark
A poça no chão crescia e ela não sabia se era da chuva ou das lágrimas que escorriam copiosas no rosto sulcado de sal pela espera, na falésia, do amor que demorava a regressar.
Vultos vestidos de negro em seu redor, as outras, trajadas pelas perdas sofridas noutros temporais sem perdão. As ondas malditas a fustigarem rochedos e a alimentarem os medos de uma maré de solidão.
E os homens na faina, surpreendidos pela tempestade traiçoeira que sem aviso tombou sobre as cascas de noz. Frágeis como bóias das crianças na praia em dias de Verão, famílias de turistas alheias às fileiras de catraios de olhar triste alinhados no pontão. Os órfãos da ira do mar que lhes fazia naufragar a esperança a cada tragédia vivida e por todos sentida quando na falésia ecoavam os gritos das mulheres traídas pelo destino, privadas para sempre de um pai, de um filho ou de um irmão.
O som de um trovão distante que abafou por um instante o soluçar angustiado. O olhar concentrado no horizonte sem luz, coração a galope no peito de cada mulher. O parto adiado de um dia cruel. O sol por nascer, escondido por detrás da expressão furiosa do céu que se apoderava de todo o espaço que a vista conseguia alcançar.
Reflectido no mar inquieto pela raiva no tecto do mundo igual ao das casas vazias de gente no povoado em aflição.
Nomes gritados dos homens condenados no final da oração, a fé fustigada pelo castigo divino na terra marcada pelo triste destino gravado em lápides da cor do giz. Como uma cicatriz no solo firme que outra leva de pescadores não voltaria a pisar.
E a família a adivinhar o final da história, outra dor na memória, outro dia malvado que ninguém poderia esquecer. O dia de morrer para entes queridos com nome nos instantes finais, anunciados como números nas páginas dos jornais nas mãos dos turistas invejados pelos putos tresmalhados por entre as toalhas de praia no areal. Órfãos que nasciam no intervalo das tragédias e cresciam nas falésias até chegar a sua vez, o momento de sofrer.
O dia de morrer ou de assistir à desdita da frota maldita arrastada para o fundo em dolorosas prestações. A dívida saldada na água tingida de preto pelo céu, outra mulher de mãos na cabeça coberta pelo luto de um véu.
O sol a despontar e a esperança a desertar a cada minuto escoado sem o regresso anunciado pela silhueta distante de uma embarcação. Em cada miragem uma nova desilusão, pontos imaginários vislumbrados pela vontade de acreditar no milagre a acontecer.
E às vezes acontecia.
Mas não naquele dia devolvido em pedaços pequenos, destroços de vidas perdidas na voragem de um oceano possesso pelo mal.
Vidas engolidas por um destino marginal.
Publicado por sharkinho às 12:32 PM | Comentários (4)
Uma recente sondagem levada a cabo na Índia revela que 30% dos jovens daquele país referem Mahatma Ghandi como o seu ídolo. Porém, a mesma sondagem refere que 37% dos inquiridos apontam nessa categoria o nome de Bill Gates.
Abstenho-me de comentar estes (curiosos) números enquanto não tiver acesso a um estudo equivalente feito em Portugal...
Publicado por sharkinho às 11:59 AM | Comentários (0)

A Lei define, e muito bem, quantos copos podemos beber até atingirmos o limite estipulado como máximo e a partir do qual deixamos alegadamente de poder conduzir com a mesma segurança.
E esse limite, que é atingido com maior ou menor facilidade consoante os tipos de bebida (e de pessoa), acaba por fazer a distinção entre os efeitos das diferentes opções ao nosso dispor na garrafeira.
Contudo, e agora que as autoridades se preparam para estrear o novo aparelho que detecta a presença de drogas no organismo, ainda não tomei conhecimento de quantos charros ou snifes de coca podem consumir-se até se atingir o limite equivalente ao das bebidas alcoólicas.
E a avaliar pela mentalidade tacanha que insiste em misturar no mesmo saco as drogas leves com as duras, omitindo por exemplo o efeito dos drunfos (que tantas “tias” consomem à fartazana para combaterem a neura), é de prever que ninguém se tenha dado ao trabalho de distinguir os efeitos das diferentes substâncias na capacidade efectiva de manobrar máquinas e em particular os veículos automóvel.
Isso leva-me a concluir que o Estado apenas pretende explorar um novo filão tapa-buracos à custa do maior número possível de cidadãos, aproveitando para infligir um golpe de misericórdia na questão da liberalização do consumo das drogas leves que, como se sabe, depende em absoluto da mentalidade vigente.
E essa é que colocará o cidadão “caçado” depois de fumar um charro de erva que lhe dá vontade de rir no mesmo plano do que consumiu heroína ao ponto de nem ser capaz de conduzir um carrinho de mão.
Soa-me imbecil.
Nota: Em condições normais nunca deixaria a caixa de comentários de uma posta destas fechada, pois não receio o debate das minhas posições e até a sua contestação.
Se testarem as caixas das postas abaixo percebem logo porquê.
Mas fica disponível o email sharkinho at gmail dote come para quem não consiga reprimir uma reacção a estas palavras.
Publicado por sharkinho às 09:46 AM

Imagem daqui.
Ando há uns dias para escrever acerca do assunto, pois fiquei feliz por saber um Prémio Nobel tão bem entregue.
Muhammad Yunis, economista originário do Bangladesh, recebeu a mais prestigiada distinção a nível mundial não na sua área mas na que distingue as pessoas de bem. Contudo, já tinha o seu lugar reservado na História por ter sido o pioneiro na aplicação prática do pressuposto de que não se combate a pobreza oferecendo o peixe mas sim a cana de pesca, confiando na capacidade das pessoas quando possuem apoio efectivo e realista para concretizar os seus projectos em vez de as estigmatizar com o rótulo de miseráveis sem recuperação possível.
A diferença entre praticar a caridade de fachada e estender uma mão solidária…
Este homem notável, chocado com a realidade da miséria no seu país, utilizou os seus conhecimentos na área económica para criar uma realidade que soava como um contra-senso: enquanto os bancos tradicionais se digladiam na “caça” aos mais endinheirados, Yunis decidiu apostar no extremo oposto da equação e fundou um banco vocacionado para os extremamente pobres.
E acertou em cheio.
Existem diversos aspectos notáveis no trabalho deste ser humano excepcional, bem como alguns dados que o devem orgulhar porque estimulam novos investimentos nesta área e, sobretudo, nesta forma proactiva de agir contra a miséria.
Saliento um que, a meu ver, diz tudo o que há de importante a saber quanto aos resultados obtidos pelo projecto do novo e merecido Prémio Nobel da Paz: o volume de crédito malparado, apesar de ser acima de tudo a honra e a honestidade dos beneficiados a garantir a cobrança dos financiamentos, é bastante inferior aos dos bancos comuns.
Parece ficção, num mundo que parece mergulhado numa idade das trevas civilizacional e que se traduz no crescente desequilíbrio entre as condições de vida dos privilegiados do hemisfério norte e as dos seus "parentes pobres" das nações menos desenvolvidas, quiçá uma herança da intervenção colonialista dos europeus nessas zonas do planeta.
Dos números envolvidos no sucesso obtido pela ideia genial deste Senhor destaco que cerca de 60% das pessoas beneficiadas pelo Grameen Bank saíram do limiar da pobreza e já são mais de cem milhões os titulares de um micro-crédito.
Por isso mesmo, rendo aqui homenagem a este Homem que justifica a imortalidade nas memórias dos seus semelhantes.
Menos do que isso seria dar corpo a um expoente elevado da ingratidão mais leviana.
Publicado por sharkinho às 10:54 AM | Comentários (2)

Gravura integralmente preenchida com gente hetero e unida pelos sagrados laços do matrimónio.
O indivíduo, quarentão com um ar distinto, entrou pelo meu escritório e estendeu a mão com uma folha colorida de papel e perguntou:
- Posso deixar-lhe o tratado?
E eu disse que sim.
O “tratado” consistia afinal num folheto destinado a explicar o que é uma religião falsa na perspectiva das Testemunhas de Jeová. Knock, knock! Shit happens.
E é elucidativa em muitos aspectos, esta propaganda fascista de distribuição impune.
Fascista é um termo forte? Então regalem a vista com esta passagem:
“Em países ocidentais, grupos religiosos nomeiam gays e lésbicas como ministros em suas igrejas e pressionam o governo a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Até mesmo igrejas que condenam a imoralidade toleram líderes religiosos que abusaram sexualmente de crianças.”
Estão a ver o paralelo subtil, a associação de ideias natural neste raciocínio “divino”?
Gays, lésbicas e violadores de crianças enfiados no mesmo saco, escória imoral na visão cristalina destes pregadores inconvenientes na presença e no discurso.
Tudo em nome de Deus, claro, como se infere da citação que compõe esta pérola:
“Não sejais desencaminhados. Nem fornicadores, nem idólatras, nem adúlteros, nem homens mantidos para propósitos desnaturais, nem homens que se deitam com homens… herdarão o reino de Deus.” (Coríntios 6:9, 10)
A revista Asiaweek, citada pelos fulanos, alerta que “o Mundo está à beira da loucura”. E eu só posso concordar. Sob a capa de uma religião, estes lunáticos sentem-se no direito de invadir a minha privacidade para divulgarem ideologias merdosas. Isentos de punição, a coberto de um estatuto que lhes permite proferirem este tipo de atoardas insidiosas, de incitarem por inerência e contra o próprio espírito da legislação e os princípios deste país a descriminação das pessoas em função dos seus hábitos e preferências sexuais, sem hesitarem em associar homossexualidade e pedofilia às claras, no seu “tratado” que não passa de uma declaração de guerra a uma parte da população.
Em nome de Deus, o deles.
E eu, agnóstico, não consigo vislumbrar um deus que defina a capacidade de liderança de um ser humano, a sua integridade, em função do género a quem dedica o seu desejo e o seu amor. Não consigo encontrar a fé em deuses reaccionários, ícones tutelares de um conceito de moralidade questionável, desprezível, à luz do bom senso dos homens e estapafúrdio se entendido numa dimensão divina.
Estes puritanos que afirmam que “os verdadeiros adoradores não são divididos por raça ou cultura” vetam essa condição aos que, mesmo crentes e praticantes de uma forma de estar na vida exemplar aos olhos do padrão definido por estes juízes de pacotilha, enveredem por um comportamento sexual que fuja ao estipulado na concepção medonha desta religião “verdadeira”.
Se dependesse destes cromos, podem ter como certo que me assumiria ateu.
Publicado por sharkinho às 12:57 PM | Comentários (11)
Os dias histéricos do extremar de posições.
Teremos então uma nova oportunidade de observar as imagens de fetos desmembrados que nos recordam a argumentação do costume da malta pelo direito à vida, sempre baseada no pressuposto de que do outro lado da barricada encontram-se aqueles/as que defendem com euforia a estimulante prática na boa do aborto como método contraceptivo…
Para que não restem dúvidas, não sou comunista mas faço parte desse grupo de esquerdalha sem princípios que provavelmente também abona a favor das injecções atrás das orelhas dos anciãos (embora, incoerente, não advogue que - só por causa dos brincos sem mola - as furem às criancinhas que escapem à chacina que os monstros como eu votarão no referendo que já peca por tardio).
Vê-se logo que sou homem. E arraçado de filisteu.
Publicado por sharkinho às 09:21 AM | Comentários (10)
A amizade engloba confiança, honestidade e respeito mútuo.
Também implica consideração, disponibilidade e estima.
Isto para não falar do carinho, da lealdade e do espírito de entreajuda.
Sentimentozinho complicado, hã?
Publicado por sharkinho às 06:02 PM

Nunca fui muito dado a superstições. Nem que seja por uma questão de coerência, pois não faria sentido um agnóstico acreditar nesse tipo de crendice sem outra forma de se sustentar que não a estatística.
Os azares acontecem, isso é um facto que ninguém contesta. E alguns surgem como uma consequência dos nossos actos ou omissões, um azar pré-fabricado que só tem essa designação por causa daquela tendência para descartarmos as nossas culpas.
Porém, esses “azares” também entram na estatística e alimentam os receios que estão na origem das precauções estapafúrdias que alguns entendem tomar nestes dias especiais.
Hoje é sexta-feira treze, um dia que a palermice humana convencionou mais azarado do que os outros. Escadas, ferraduras, gatos pretos, patas de coelho. Simbologia tão tola como outra qualquer, apenas porque alguém teve um dia mau e necessitou de encontrar uma explicação para tanto galo.
Claro que para muitos o que acabo de escrever é quase uma blasfémia, uma provocação descarada ao destino que me poderá castigar como um deus pagão sob a forma de um azar que até poderia acontecer noutro dia qualquer. Uma provocação a quem acredita nestas coisas, pois não há maior insulto para uma crença do que a respectiva ridicularização.
Eu não passo debaixo de escadas ou escadotes por uma questão elementar de bom senso, de resto o mesmo motivo que me leva a não acrescentar um acessório para cavalos aos molhos de chaves, moedas e outras cenas de metal que me atafulham as algibeiras. Não monto quadrúpedes, nem os temo em função da cor. Se os gatos são pretos, apenas concluo que de noite é mais difícil descortiná-los e é mais fácil ter o azar de lhes pisar a cauda sem querer.
E quanto às patas de coelho, só mesmo no tacho e ficamos conversados quanto aos símbolos que seleccionei para ilustrar o meu cepticismo radical.
Assim sendo, enfrentarei este dia como outro qualquer. Sempre à coca de chatices inesperadas que urge evitar, sobretudo provocadas pela minha desatenção.
Mas convicto de que no final do dia, e mesmo que as porras se manifestem em catadupas, não faltarão outras sextas-feiras treze para limpar a má imagem que este dia me possa trazer.
E claro que vos desejo um dia sortudo, nem que seja só para eu ter razão naquilo que afirmei.
Publicado por sharkinho às 11:13 AM | Comentários (4)
O Mundo está cada vez mais perigoso. Apesar de o espectro de um terceiro conflito mundial (e certamente nuclear) ter sido “erradicado” com o fim da guerra fria, a tensão entre Estados, ideologias e até religiões é crescente e o calibre dos líderes actuais não deixa margem de manobra para a fé no bom senso.
Basta imaginar uma Baía dos Porcos gerida por George Bush no lugar de John Kennedy. Ou um Chernobil controlado por Putin.
A ONU, desacreditada, de pouco vale em caso de ameaça séria à estabilidade mundial. O desequilíbrio latente de forças (ainda faltarão uns anos para que surja uma nova super-potência capaz de ombrear de igual para igual com o gigante americano) cria receios naturais que as recentes intervenções no Afeganistão e no Iraque consolidam e que a perspectiva dos que, como o professor Marques Bessa (docente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas - ISCSP), defendem - só existe a política externa quando se possui o poderio militar para a impor – justifica.
No meio deste cenário, nações como a Coreia do Norte podem constituir o rastilho para situações impensáveis à luz da aparente acalmia que se vive nos países ocidentais e que, por via dos interesses económicos e das alianças firmadas, inevitavelmente os arrastarão para o centro de qualquer conflito seja este convencional ou não (como os atentados terroristas em solo europeu bem o demonstram).
Mas mesmo a China, o eterno papão, poderá a qualquer momento anunciar ao mundo a sua tomada de posição mais temida, aplicando em Taiwan a receita tibetana.
E a Rússia de Putin, mantida a recato por via da paupérrima situação económica em que o país mergulhou, cedo ou tarde voltará a querer afirmar-se no contexto internacional. À bruta, como estas coisas costumam acontecer naquelas paragens.
Por outro lado, a clivagem cada vez mais acentuada entre hemisférios não dá mostras de tirar o sono aos mentores da nova ordem mundial mas revela-se cada vez mais trágica, cruel e potencialmente geradora de alguns dos episódios mais indignos que a Humanidade já conheceu.
O ataque às torres gémeas, o massacre de Beslan, a chacina do Ruanda e a agonia em Darfour são a ponta de um icebergue que ninguém saberá ou poderá controlar se alastrar como a negligência e a arrogância actuais permitem.
O clima está muito denso nos bastidores das Relações Internacionais e estupidamente elevado nos oceanos e nas calotas polares. O ambiente ainda é o parente pobre das preocupações modernas mas já revela (Nova Orleães constitui um sólido exemplo) o quanto os habitantes de qualquer nação da Terra estão à mercê de tragédias a que os Estados não estão preparados para dar resposta.
E por fim, neste rosário pessimista que o Mundo me inspira, existe a infelicidade latente na sociedade que estamos a construir. A que se vê nas ruas e se lê nos jornais, traduzida num aumento da criminalidade protagonizada por cidadãos pacatos que sem causa aparente atacam escolas e na realidade dos factos representada pelo número impressionante de um milhão de mortes anuais por suicídio.
A sensação de impotência perante todos estes factores é imensa e leva-me a temer um futuro pouco risonho se nada acontecer que altere de forma drástica a atitude global, mesmo que isso possa custar uma catástrofe económica cuja contenção é prioritária (obsessiva?) nas decisões de quem as pode tomar por nós.
E não vejo motivos para as acreditarmos acertadas.
Publicado por sharkinho às 11:09 AM | Comentários (2)
Um país inteiro a acontecer. Um mundo com quase duas centenas de nações!
E no noticiário da RTP, o canal do Estado, serviço público, espetam-me com o lançamento de um CD pimba de um ex-árbitro de futebol??? Entrevistam o homem, como se tivesse acontecido algo de relevante que envolvesse a criatura? Um CD para vender nas feiras e nos cafés?
Puta que os pariu, perdoem-me o vernáculo, mas sustentamos a corja e temos o direito de lhes exigir o respeito, no mínimo, pelo bom gosto e pelo bom senso.
Ou alguém quer convencer-me que o não-sei-quantos-Rodrigues, esse artista consagrado, é tema de notícia noutro suporte que não um tablóide ou um canal de tv (e K7) pirata?
Publicado por sharkinho às 04:52 PM | Comentários (0)
Escrever o amor de uma forma “universal” é quase um santo Graal para quem investe na emoção e inclui as palavras nessa definição do que de mais profundo conseguimos sentir.
E isso aplica-se tanto ao amor sereno que adormece nos braços de alguém depois de um momento irrepetível como ao amor explosivo, arrebatado, que se contorce de ira às mãos do ciúme ou conduz um amante às raias da loucura.
Por muito que esse arquétipo ornamente alguns devaneios literários e fantasias de casal, nem o próprio amor possui uma alma gémea. Não existem dois amores iguais, duas formas semelhantes de sentir e de exprimir uma paixão e as suas grandezas e misérias.
Cada pessoa valoriza o amor numa escala que é a sua e opta por um caminho para o usufruir que jogue certo com a sua sensibilidade e o seu grau de carência. Por isso chamam egoísta ao amor, por prevalecer sempre a “nossa” percepção. A que muitas vezes nos tolda à diferença que caracteriza os/as destinatários/as desse ar sem o qual ninguém respira em condições.
O amor é fundamental, nem que baseado apenas numa reciprocidade ilusória ou mesmo num erro grosseiro de interpretação da nossa inteligência emocional.
Escrevemo-lo, os que conseguem, sempre de acordo com a intensidade que nos absorve enquanto o pensamos para o traduzir em palavras. Por vezes, tantas vezes, bem melhor do que o conseguimos por outra forma. Numa conversa telefónica. Na cama, até.
E sempre de uma forma subjectiva, seja no modo como descrevemos o nosso sentir ou como interpretamos o das outras pessoas.
Por isso vão sempre existir tentativas frustradas de “globalizar” em palavras o que nunca poderá definir-se de uma maneira que encaixe em todas as noções possíveis de entre as variáveis sem fim que cada ser humano em cada conjuntura produz.
A prová-lo, basta repararmos nos exemplos de sintonia perfeita nesse domínio entre uma multidão de dois.
É por isso que me senti tentado a repetir agora a última frase da posta anterior.
Publicado por sharkinho às 03:39 PM | Comentários (5)
Por princípio os fins justificam os meios. Mas não há meio de justificar um fim sem ter em conta o princípio que o originou. E nesse caso, a falta de princípios acaba por ser um meio válido para se atingirem apenas os fins sem justificação possível.
Mas eu de política não percebo nada…
Publicado por sharkinho às 09:16 PM | Comentários (0)

Os sons das outras vidas transpunham as paredes que o isolavam da vizinhança e ele sentava-se na sala todos os dias, em silêncio, para os escutar.
Vivia assim, as vidas dos outros, ria e chorava, não dizia mas pensava as soluções em falta para os guiões alheios que lhe oferecia uma existência de espectador.
Durante trinta anos preencheu assim os serões e o início de cada dia, sentado no cadeirão à escuta. A companhia das vozes e dos ruídos que lhe traziam a escassa compensação de uma realidade que partilhava clandestino como um espião a fingir.
Todos no edifício o julgavam maluco e ninguém se atrevia, ninguém arriscava a troca de uma palavra com aquele estranho que os conhecia a todos melhor do que qualquer outra pessoa. Alguns apenas em uma ou duas ocasiões conseguiram apanhá-lo de fugida, na sua corrida para a salvação nos degraus.
O mudo do quinto, como o chamavam, sofria de claustrofobia e nunca partilhava um ascensor. Assim o explicavam, calado e arisco, sempre que o falavam pelas costas do roupão, com o lixo na mão que despejava de madrugada no contentor atafulhado dos restos das vidas que preenchiam a sua.
Estranhavam os minutos que demorava em contemplação dos detritos que lhe confirmavam teorias e completavam na memória as imagens esboçadas pela imaginação.
Ninguém adivinhava o prazer que lhe dava a visão do papel de embrulho rasgado pelas pequenas mãos do vizinho do lado, a festa de aniversário que sorvia enquanto sorria de orelha encostada ao fundo do copo na parede do quarto vazio que lhe servia de arrecadação.
Gritos de alegria, música no ar, pura magia nas sobras de vida que escorriam sonoras pelos poros do betão até aos ouvidos atentos do vizinho solitário.
Os dias escoaram-se assim até um dia em que alguém deu pela falta dos passos discretos do maluco do quinto na penumbra dos patamares. E o cheiro que exalava da porta que o isolava dos outros fazia prever o pior.
A polícia e os bombeiros desvendaram o mistério. Corpo inerte putrefacto, o cidadão anónimo do quinto jazia sem vida numa cadeira da sala vazia.
Descobriram-lhe no colo o grosso volume daquilo que confirmaram mais tarde tratar-se de um diário. As vidas de várias pessoas, famílias, descritas com emoção pelo observador ausente, um afastado parente que registava com palavras belas a expressão colorida do seu sentir envergonhado que a vizinhança ignorou, autista.
Ninguém o acompanhou na derradeira viagem, até à última paragem no condomínio para sempre fechado, onde o vizinho calado se apeou para escutar na eternidade as vidas passadas dos espíritos que o observavam desconfiados na sua muda corrida para a salvação nas nuvens mais escuras do céu.
O seu diário, legado, seria publicado pouco tempo depois e alguns críticos aventaram uma profecia, outros uma maldição, nas duas linhas iniciais.
Alma penada perdida na estrada que o destino esqueceu. O mapa traçado no papel assombrado que um fantasma escreveu.
Publicado por sharkinho às 11:38 AM | Comentários (2)

Foto: Shark
Ouvi dizer que hoje é o primeiro dia de Outono.
Isso é bom, pois vai permitir-nos entender o temporal que o anuncia como se fosse o temporal que o anuncia.
De outra forma teríamos que olhar para este céu cinzento e recordar o facto de se tratar do que resta de um furacão que nasceu a milhares de quilómetros mas conseguiu cá chegar a tempo de nos lembrar que o Outono começa hoje, depois de surfar durante dias sobre um oceano em banho-maria que o levitou de forma bizarra até aqui.
Não é o Outono que esta anomalia me invoca.
E a sensação é muito desconfortável.

Publicado por sharkinho às 09:19 AM | Comentários (0)

Irrita-me esta propensão da populaça no mundo islâmico para pegar por tudo para fazer granel nas ruas, para atacar os “infiéis” por mais absurdo que seja o pretexto.
Por tudo e por nada, toca a queimar bandeiras, igrejas, automóveis e a berrar aos tiros o ódio do momento como se esse ódio lhes alimentasse o estômago e a fé.
Ou porque o escritor tal insultou o Alcorão, ou porque uns Zé-ninguém da Dinamarca fizeram umas caricaturas insultuosas para o Islão ou porque o Santo Padre (que não foi tão “bento” como o pintam) citou um imperador bizantino que insultou o Profeta séculos atrás.
Matam pessoas com base nesta reacção de virgens ofendidas que apenas tem servido para lhes criar uma imagem no mundo ocidental que em nada serve a causa de que fazem a apologia.
Uma freira sexagenária que trabalhava num hospital somali foi abatida a tiro por causa do insulto que serviu para mais uns incitamentos dos líderes religiosos fundamentalistas.
Isto cabe na cabeça de alguém?
Se por cada disparate que sai das bocas descontroladas de alguns fanáticos fossem executados membros das respectivas Igrejas o mundo transformar-se-ia num imenso faroeste. E essa, paradoxal, é a versão que veste melhor os bushes deste planeta panela de pressão, a gente boa que se pendura nos receios com a segurança para transformarem aos poucos o ocidente cristão numa imensa fortaleza e o oriente islâmico numa gigantesca, (in)discriminada e ameaçadora horda de talibãs.
Por outro lado, não se papa o grupo de que o Sumo Pontífice e seus conselheiros nem faziam ideia de que aquelas palavras proferidas nesta altura provocariam o estardalhaço que ainda mal começou. Como alguém dizia algures, ou foi de propósito ou foi uma tirada imbecil e despropositada. Qualquer das duas opções, num Estado a sério, democrático, deixaria o líder em péssimos lençóis e provavelmente conduziria à respectiva destituição do cargo.
Mas no Vaticano só mesmo a morte pode destituir um incapaz que o acaso (pois, a vontade de Deus…) imponha e os factos confirmem nesse particular.
Também me irritam os paninhos quentes com que (quase) toda a gente neste nosso santo bastião da cristandade civilizadamente hipócrita se apressa a cobrir as causas e os efeitos da “boca” desnecessária que os santos lábios não quiseram ou não souberam reprimir.
Os dois lados da barricada estão à mercê de líderes que não inspiram fé alguma na sua capacidade de resolução do problema que se agrava dia a dia com gestos cobardes, palavras insensatas e novas revelações do esterco ético em que se atolam uns e se conspurcam outros.
E a nós, cidadãos comuns de cada um dos extremos cada vez mais opostos, resta aguardar que esta gente perceba que a ninguém interessa um conflito destas dimensões e ainda menos interessa que dêem à costa alguns figurões que o agudizem. Em nome de qualquer fé, pois a fé principal consiste em termos uma vida em paz e sem mais medos do que aqueles que derivam, por exemplo, das calamidades naturais associadas ao aquecimento global ou do desespero que se vive em boa parte do hemisfério sul e cujas consequências se desenham negras nas fronteiras duma Europa encravada no seu papel de eminência parda que não sabe para que lado cair no meio dos interesses específicos de cada uma das nações que a integram.
Nós aguardamos, que remédio, pelo bom senso desta gente que manda.
Mas a avaliar pelo que está (e pelo que não está) à vista é melhor esperarmos sentados…
Publicado por sharkinho às 11:00 AM | Comentários (15)

Eu sei que esta posta interessa mais a quem tem filhos em idade escolar, pelo que vou esforçar-me para reduzir a coisa ao essencial.
E começo pelo princípio: de cada vez que um Governo altera ou permite alterar o esquema de funcionamento do Ensino é mais vincada a sua crescente desresponsabilização das obrigações que os nossos impostos lhe impõem.
Tenho uma filha no segundo ano do primeiro ciclo (a antiga segunda classe). Este ano, como é costume, foi agendada uma reunião com os pais e encarregados de educação para, em simultâneo, apresentar a bela trampa de decisões do “agrupamento” que rege os destinos da escola da minha filha e fingir que respeitaram a intenção do Executivo de iniciar as aulas até ao final desta semana. Hoje, portanto.
O primeiro indicador de que algo não bate certo foi o facto de a dita reunião ter sido marcada para as 13:30 horas de um dia de semana…
Mas esperavam-nos revelações ainda mais elucidativas da barraca que o Estado dá nesta matéria.
As aulas passam a ter início meia hora mais cedo, o que até parece um transtorno menor. Estapafúrdio (e exemplificativo da tal desresponsabilização de que falo acima) é o facto de a esses trinta minutos corresponder um intervalo de igual período, não remunerado aos professores. Este pormenor implica que os alunos ficam durante meia hora ao relento, pois os blocos escolares são encerrados e muitos espaços de recreio não possuem uma área coberta. No pico do Inverno isto soa cruel e desnecessário, à conta da poupança de 30 minutos de trabalho de um professor.
Para os professores, para além da inovação do livro de ponto com sumários no 1º ciclo, nasce a obrigação de compartimentar a matéria em disciplinas (o que os impossibilita de criar uma sequência lógica e agradável para as aulas). No fundo, transporta-se o esquema do segundo ciclo para o primeiro. Fica tudo menos apelativo para alunos e professores.
Se considerarmos que a escola deve ser um espaço agradável precisamente para estes dois grupos, é óbvio o divórcio entre a lógica do Governo e a prática no terreno. Nada de inovador, portanto…
E depois os novos períodos “complementares”, o Apoio Escolar (os TPC passam a TPE) e as Actividades de Enriquecimento Escolar (os putos acrescentam mais duas horas ao tempo de permanência numa escola que os “põe na rua” todos os dias às 10:30), tudo desenhado para converter a escola num martírio (já tinham aquela ideia peregrina da hora e meia de aula no antigo secundário e agora começam a prepará-los mais pequeninos para o abandono escolar).
Eu pasmo com estas alarvidades. E se antes estranhava a súbita psicose de encerramento de escolas, com base na gasta e duvidosa argumentação da melhoria da eficácia do sistema, agora não duvido que o sistema quer é poupar umas coroas (sem que isso implique uma redução fiscal para quem o sustenta e, por isso, à nossa custa).
No fundo, o Estado quer obrigar quem pode a inscrever os filhos no privado. E para isso pioram aquilo que podem (parece mal deixar degradar o equipamento escolar e tal), alterando as regras a um ponto que torna insustentável a vida de alunos, professores e pais.
Se somarmos estas aberrações à forma desastrada (desastrosa) como a classe docente tem vindo a ser tratada (humilhada), é fácil de prever a alegria que irá reinar no ano lectivo que agora começou.
Como apontamento final deste lençol não posso deixar de referir um questionário de preenchimento “obrigatório” (deve ser, deve…) onde, entre outras informações importantíssimas, procuram saber com que idade o aluno foi desfraldado, o tipo de parto que o trouxe ao mundo, quantas assoalhadas tem a casa onde vivem e, esta é mesmo de bradar aos céus, qual o seu clube de futebol preferido!!!
É de mim ou andam mesmo a gozar com a nossa cara?
Publicado por sharkinho às 09:40 PM | Comentários (11)

Foto: Shark
Acabou de beber a cerveja e depois reagiu como se tivesse emborcado um copo cheio de lágrimas.
Ninguém na esplanada reagiu. Alguns desviaram por instantes a vista do jornal, dois ou três pararam de vaguear com os olhos enquanto falavam pelo telemóvel e concentraram por instantes a atenção naquela figurinha. Mas a maioria nem reparou ou apenas fez de conta.
Deixou sobre a mesa duas notas. Só uma servia para pagar a despesa. A outra, soube-se depois do sucedido, era a factura individual apresentada ao mundo como o valor residual de um aluguer de longa duração cujo prazo chegara ao fim. Encurtara, logo a seguir ao ruído assustador do chiar de travões alguns metros adiante, no extremo da rua. O som seco de um baque, mais o que pareceu a alguns um grito.
Uns zunzuns, o dono do estabelecimento a espreitar o aglomerado de mirones, passados uns minutos chegou uma ambulância que acabou por se ir embora e a pequena multidão dispersou.
Alguns comentários e meia dúzia de esgares de consternação depois, alguém quebrou o silêncio encomendando uma tosta mist