ENTREVISTA DE FRANCISCO PENIM AO DN

O Director da estação de Carnaxide faz um primeiro balanço das mudanças conduzidas na SIC, em entrevista ao Diário de Notícias, que transcrevemos com a devida vénia.
No espaço de um ano, a SIC perdeu cinco pontos percentuais na média mensal de audiências. Os primeiros três meses de 2006 confirmam apenas uma realidade conhecida: 2005 foi um ano em plano inclinado.
Desde que perdeu a liderança para a TVI, em Abril do ano passado (mês da estreia da novela de sucesso da concorrência Ninguém como Tu), a estação de Carnaxide foi perdendo competitividade e, além de se afastar do primeiro posto, permitiu a aproximação perigosa da RTP. Tão perigosa que... foi apanhada. Em Outubro, o primeiro mês efectivo de Francisco Penim (chegou à direcção a 26 de Setembro), a SIC ficou em terceiro lugar, mas corrigiu posições em Novembro, Dezembro e Janeiro. No mês seguinte, porém, voltou a baquear perante o canal público. Uma realidade que, é quase certo, se manterá em Março. Com 16 dias decorridos, a RTP leva 1,2 pontos percentuais de avanço sobre a SIC e ainda tem um Benfica-Barcelona para exibir no final do mês, o que lhe permitirá acrescentar mais umas décimas ao pecúlio já amealhado.
Há seis meses, a SIC estava em segundo lugar, hoje está em terceiro. Isto significa que a SIC está pior do que em Setembro?
Não, significa que a SIC está em transição e todas as mudanças causam fricções e fluxos de pessoas. A SIC estava numa realidade preocupante, a descer há alguns anos e com uma queda acentuada desde Março, quando voltámos a perder o prime time. Portanto, os resultados até agora não me surpreendem, o que, aliás, só reforça o que eu disse quando cá cheguei: voltar à liderança vai demorar dois anos. É preciso muito trabalho para voltar a ser o que era.
Mas estes resultados têm penali-zado muito a sua imagem...
É normal que os profetas da desgraça andem por aí e digam que a SIC está pior, que é tudo um flop. As pessoas vêem o que querem ver.
E objectivamente o que se pode ver é que estes primeiros seis meses não estão a permitir inverter posições...
Objectivamente, temos um Programa da Manhã, que começou há umas semanas e que tem muito caminho pela frente. Durante dez anos, a SIC trabalhou naquele horário para miúdos e, portanto, há que criar habituação no público e isso demora muito tempo. É impossível fazer comparações. Depois, temos um Fátima, que já fez este ano melhores resultados do que em 2005. Ninguém nota, mas já fez. Perdeu em Janeiro? Perdeu, mas ganhou em Fevereiro e ninguém o diz. Não convém.
Mas o Fátima, a sua primeira aposta, foi apresentado como um novo programa, mas acabou apenas por ser um lifting. Continuam lá todos os conteúdos do SIC 10 Horas...
Sim, foi um lifting e eu assumo. Nós sempre dissemos que queríamos a Fátima com um novo look: um novo penteado, uma nova forma de vestir. Isso sempre foi assumido. Nós não queríamos mudar os conteúdos, até porque era um formato vencedor.
Então, para quê mudar? Apenas marketing?
Porque nós achámos que era necessário para preparar a nova SIC, para conquistar novos públicos.
À tarde, acabou com o Às 2 por 3 e lançou o Contacto. Os resultados são francamente desanimadores...
Desde que o programa passou a ser emitido às duas da tarde, tem dado sinais de crescimento. Ainda que esteja a lutar contra um produto na RTP que é hipervencedor, A Escrava Isaura, quem tem 60% de share. Naquele horário, o Contacto está a surpreender, porque faz melhor do que o Rex, o Chocolate com Pimenta, e tudo o resto que lá colocámos.
Mas continua a perder claramente com o Portugal no Coração, de José Carlos Malato...
É verdade, mas enquanto o Contacto vai crescendo ao longo da emissão, o Portugal no Coração vai descendo à medida que os minutos passam. Enfim, não estou a fazer nenhuma crítica nem a dizer mal, porque a verdade é que eles também começam com 60% de share e, portanto, é natural que percam espectadores a partir desse momento. Eles fazem o seu trabalho e fazem-no bem.
Gostava de ter o Malato na SIC?
Eu gostava de ter na SIC todos os bons profissionais e o Malato é indiscutivelmente um bom profissional.
Recentemente, foi noticiado que a SIC queria contratar Malato e Merche Romero...
Não tem qualquer fundamento, garanto-lhe. Eu duvido de que fizesse alguma tentativa séria de contratação de uma pessoa com esse estatuto num canal da concorrência sem primeiro falar com mais pessoas.
Com Nuno Santos, por exemplo?
Se estivesse seriamente interessado, teria esse cuidado. Mas, nesse caso, os rumores não têm fundamen- to. Eles são óptimos, mas eu também não tenho lugar para todos na SIC. Tenho óptimos profissionais na ca-sa, que sempre deram o litro e que agora nem estão a apresentar.
Mudemos de assunto. A SIC exibe sete novelas brasileiras. Não há uma excessiva dependência da Globo?
Há. É uma dependência que já vem desde 1995, mas que sempre correu extraordinariamente bem para a SIC e que só de há um ano para cá é que não rende resultados. Portanto, eu não posso esquecer-me de que os nossos parceiros da Globo nos ajudaram a ter dez anos fantásticos. Temos tido azar. Não há aqui menor qualidade dos produtos da Globo, tanto que as novelas que cá foram fracasso ou não funcionaram tão bem, lá foram do agrado geral.
Mas acha estrategicamente correcto que uma televisão como a SIC esteja tão dependente de um produto cuja qualidade não controla?
Não, não acho. É perigoso, mas importa lembrar que a SIC tem sete novelas no ar há muito tempo, não é só desde que entrei para a direcção de programas.
E como se acaba com isso?
Tenho de ter alternativas. E é nisso que estou a trabalhar. Mas eu estou apenas há seis meses em funções. Ninguém cria formados de sucesso para tantos horários em seis meses.
Portanto, a ideia é ter menos novelas brasileiras em antena?
Sim, claramente. Mas não me pergunte quantas. Não lhe sei dizer, nem sequer me vou comprometer com isso. Mas, claramente, digo que não é razoável continuar a ter sete ou oito novelas no ar ao mesmo tempo.
E no prime time?
Seguramente teremos uma novela brasileira em horário nobre. Pelo menos uma.
A SIC quer renovar o contrato exclusivo com a Globo, em 2009?
Claro que sim. E estamos a trabalhar nisso.
Moniz já disse que gostaria de contar com esse produto...
É normal, o produto é bom.
Ainda assim, a SIC aponta agora a ficção portuguesa como um ponto estratégico na sua programação...
É normal, o nosso entendimento é que devemos apostar na ficção em português. Por isso fomos buscar a Teresa Guilherme. E já temos no ar 7 Vidas, uma série semanal que obrigou a concorrência a mexer-se.
A SIC contestou aliás essa reacção de Moniz...
Não foi a SIC, foi a Teresa. Eu não acho que seja imoral ou errado que o Moniz seja obrigado a meter ao domingo os Morangos com Açúcar. É um trunfo dele. Provavelmente, no seu lugar, faria o mesmo. Mas não deixo de registar que um produto novo obrigou a TVI a colocar uma novela que só dava de segunda a sexta... também ao domingo. É bom sinal para nós.
E agora a SIC prepara a estreia de Floribella à hora de Morangos com Açúcar. Acha que uma novela tipo conto de fadas, que mostra o lado bom da juventude, pode concorrer com um fenómeno muito real e urbano como os Morangos?
Inevitavelmente, os Morangos e a Floribella vão lutar entre si. Vão ser colocados face to face e as pessoas vão optar. É claro que os Morangos vão ganhar sempre, mas a Floribella vai fazer um percurso bem interessante. A novela vai apelar a outros sentimentos. E não estou a dizer que uma é melhor do que a outra. São diferentes. A Floribella vai apelar a outra disposição para ver televisão. Não vou entrar na cruzada moralista, que não faz sentido. Estou apenas a fazer um produto diferente.
Fonte: Diário de Notícias
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