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março 31, 2006

IMPRENSA E EXÉRCITO, ESTRANHO CASAL

Posta em prática na invasão do Iraque pela coligação anglo-americana, a integração de jornalistas nas unidades de combate parece ter agradado a todos. É o que conclui um relatório confidencial encomendado pelo Pentágono.

Na Primavera de 2003, quando as forças anglo-americanas se preparavam para intervir no Iraque e pôr fim ao regime de Saddam Hussein, diversos temas agitaram os media de todo o mundo. O primeiro foi o das armas de destruição maciça que se suspeitava estarem na posse do ditador iraquiano. A maioria dos jornais americanos, entre os quais o The Washington Post, tinha levado a sério as afirmações da Casa Branca, segundo as quais o Iraque seria uma ameaça para a paz.

Nos “media” audiovisuais, como a Fox News, persuadidos da justiça dos propósitos da Administração Bush, o apoio à guerra não suscitou qualquer contestação. Por esse motivo, era essencial para todos esses órgãos de informação estarem presentes no teatro de operações.

Preocupados em evitar o fiasco mediático da primeira guerra do Golfo, em 1990-1991, durante a qual os jornalistas se transformaram em porta-vozes das forças aliadas, por não poderem estar no terreno, os principais meios de comunicação americanos aceitaram o principio de enviar jornalistas integrados em unidades de combate (“embedded”), a fim de poderem relatar eles próprios as operações.

Estudo secreto durante um ano

A experiência que fez correr muita tinta quando foi lançada, foi objecto de um relatório oficial encomendado pelo Pentágono, do qual a Editor&Publisher obteve um exemplar. Realizado entre Maio de 2003 e Abril de 2004, o estudo – que custou cerca de 165 mil euros – esteve classificado como secreto durante mais de um ano, relata a revista.

Este desejo de confidencialidade talvez se explique pelas “revelações surpresa” que o relatório contém. De facto, enquanto muitos dos jornalistas integrados reivindicavam alto e bom som a sua liberdade de escrever ou captar imagens, o documento afirma que “os jornalistas pediam muitas vezes aos responsáveis militares que relessem ou visionassem as reportagens, antes de as enviarem às suas redacções, a fim de confirmarem a exactidão das mesmas”. Ainda que não tivesse sido apontado nenhum caso de censura, este método de trabalho suscita muitas questões quanto à independência destes jornalistas, durante as operações efectuadas no Iraque, a partir da Primavera de 2003.

Não surpreende, pois, que o Pentágono considere o programa dos “integrados” um êxito e deseje tirar proveito disso para o futuro. “Os militares ficaram impressionados com a qualidade dos jornalistas integrados. Vários responsáveis no terreno, que não tinham jornalistas nas suas unidades, chegaram a manifestar a sua decepção, pois não beneficiavam da mesma cobertura de que gozavam as unidades que tinham jornalistas integrados”, escreve a Editor&Publisher, baseando-se em dados incluídos no relatório do Pentágono.

“Em certa medida, o programa foi proveitoso, designadamente porque se estabeleceram ralações de confiança entre o comando militar e os jornalistas destacados para as unidades. Pouco a pouco, as duas partes compreenderam o interesse de trabalharem em conjunto”, confirma o documento, que assinala ainda que “sete em cada dez responsáveis de unidade deram informações confidenciais aos jornalistas para os ajudar a compreender melhor a natureza das operações e a sua execução”.

Esta vontade de dar um pouco mais explica-se, talvez, pela necessidade de conservar aqueles jornalistas à disposição, na medida em que o relatório do Pentágono mostra que, dos 692 jornalistas integrados presentes durante a primeira fase de operações, que durou até à queda de Bagdade, em finais de Abril de 2003, só restavam 19 no início do mês de Junho. “As redacções tiveram muita pressa de chamar de volta os seus jornalistas”, lamentam os autores do relatório, na medida em que “estes não puderam relatar os grandes êxitos ligados à reconstrução do Iraque”.

É neste ponto que as autoridades americanas tencionam trabalhar melhor no futuro, aquando de próximos conflitos. Considerada globalmente positiva, esta primeira experiência de jornalismo integrado nas operações militares constitui a base de uma futura colaboração estreita entre as duas instituições, “quando os jovens comandantes de unidade assumirem maiores responsabilidades e quando os jornalistas se tornarem produtores, redactores-chefes ou directores de agências”.

Todos parecem estar de acordo sobre o facto de esta colaboração estar apenas no princípio e poder vir a conhecer desenvolvimentos interessantes.


Fonte:
Courrier Internacional

João Pedro Lobato

Publicado por estaccs às março 31, 2006 02:07 AM

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