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março 30, 2006

IMPRENSA AINDA TEM FUTURO

Na direcção de 151 títulos, John Huey acredita que os grandes títulos poderão sobreviver à Net conquistadora. Mas esse facto não o impede de investir neste sector efervescente.

Nos últimos tempos, a maioria dos grandes artigos sobre a imprensa sublinha a dificuldade de enfrentar o fim da época de ouro dos monopólios e oligopólios dos meios de comunicação do século XX, de conciliar os imperativos das novas tecnologias e a economia de mercado, por um lado, e os valores culturais intangíveis, por outro, e de dar às pessoas o supérfluo que pretendem ou o necessário de que precisam. E como os patrões dos grandes meios de comunicação entraram em cena pouco antes do fim dos bons velhos tempos, os mais inteligentes, até os mais optimistas por natureza, andam… tristonhos, para não dizer desmoralizados.

Basta ver John Huey. Em 1 de Janeiro de 2006 tornou-se o patrão editorial de todas as revistas (à excepção – “infelizmente”, diz – da Mad) do grupo Time Warner. O próprio nome Time Inc., com os seus 151 títulos, é um vestígio nostálgico, como a fachada de um velho prédio por detrás da qual se construiu uma torre moderna. Huey nunca pareceu prometido a um futuro brilhante. É certo que tinha uma honrosa carreira na imprensa, mas aos 45 anos era um simples redactor na revista Fortune. Até que em 1995, o vento virou a seu favor. O seu antigo chefe no Wall Street Journal, Normal Pearlstine, foi nomeado director de redacção da Time Inc. quando a Internet estava em pleno desenvolvimento. Pearlstine promoveu-o a chefe de redacção da Fortune. Huey aproveitou ao máximo para a tornar uma revista mais informativa, incisiva, sexy, divertida, numa palavra, excelente. E também escolheu o momento certo para sair e passar a ser o braço direito de Pearlstine precisamente no momento em que a bolha Internet terminava.

O Importante e o interessante

John Huey é apenas o sexto director da redacção Time Inc., o que acrescenta prestígio ao cargo. Como todos os seus antecessores, Huey é inteligente e destila orgulho. Mas também é exuberante e de esquerda, de uma forma autêntica, insolente, simpática. É um homem com piada.

Há alguns anos, quando um jornalista lhe perguntou o que sentia após ter irritado o pessoal antigo da Time Inc. ao recorrer a pessoas do exterior para dirigir as revistas, respondeu com uma franqueza desconcertante: “A assiduidade irrepreensível nem sempre é recompensada”. Mas a contratação não constitui visivelmente a prioridade. A empresa acaba de despedir 105 quadros e está iminente outra leva. É uma empresa muito rentável – mais de mil milhões de lucros por ano para um volume de negócios de 4,7 mil milhões de euros – mas isso só interessa a Huey na medida em que lhe permite contratar os melhores jornalistas para fazer jornalismo de qualidade. “Para certas revistas, o importante não é apenas o lucro, mas termos a confiança do público. A Time não é a publicação que obtém mais lucros” – longe disso – “mas o lucro continua a ser o mais importante”, explica. Será que este tipo de discurso não desagrada às outras equipas de redacção? O facto é que só um punhado de títulos do grupo produz um verdadeiro jornalismo “que goza da confiança do público”. E não são os menos importantes que sofrem mais. Em 2005, as páginas de publicidade da Fortune e da Time diminuíram 10 e 12,2 por cento respectivamente.

O público da Time é constituído, em partes quase iguais, por mulheres e homens, mas desde há alguns anos, os outros títulos do grupo dividem-se em duas categorias, cada uma dirigida a um sexo. E é a parte feminina que aguenta o grupo – nomeadamente o semanário People, que contribui com 30 por cento para os lucros. O seu sucesso dá vertigens a Huey. Mas, sem que lhe perguntem, ele define o que distingue as duas principais revistas da Time Inc.: “A Time fala de tudo o que é importante e a People de tudo o que importa pouco, mas interessa a toda a gente”.

Nos derradeiros instantes da bolha Internet, a empresa comprou a Business 2.0, a revista da nova economia, por 56,5 mil milhões de euros. “O que retrospectivamente”, admite Huey, falando do preço, “não parece ter sido muito inteligente. Mas, então, que papel tem o investimento da era Internet no sector da comunicação social?” Foi preciso injectar mais cerca de 33,5 milhões de euros na revista. A sua fé não parece muita sólida. “Mas penso que vai sobreviver”, diz John Huey.

Continua a acreditar na nova economia – de uma maneira agnóstica – no que se refere às plataformas mediáticas. Pergunto-lhe se tem projectos puramente digitais. “Vamos lançar um muito em breve. Não é uma revista. Nem sequer jornalismo. Toda a gente vai dizer, «Mas o que é que iria pensar Henry Luce, o fundador do grupo Time?»”. Todos disseram a mesma coisa em 1974, em relação à People, e também cerca de 20 anos antes, no lançamento da Sports Illustrated, e vinte anos antes, da Life. Quando a Time inventou a revista de actualidades, muitos foram os que viram nela uma espécie de mutante jornalístico extraviado. O ADN evolutivo do grupo Time Inc. exige que ele saiba sempre qual será o próximo grande meio de comunicação popular, que o execute bem e o torne respeitável. Quanto ao arranque iminente do projecto popular em linha, Huey afirma: “Toda a gente vai dizer porque é que a Time Inc. se está a lançar numa tal aventura?” Trata-se de um «site» que vai propor pequenos filmes divertidos (entenda-se grosseiros e lascivos), de animação ou não, aos jovens indolentes que trabalham em escritórios. É isso que deixa certas pessoas contrariadas.

Life renasce das cinzas

Sob o reinado de Huey, assistir-se-á igualmente ao nascimento de novas revistas em papel. Afirma sentir-se obrigado a “encontrar novos títulos que sejam interessantes”. Em dois anos, os Estados Unidos acolheram três recém-chegados: Cottage Living, a revista feminina das grandes superfícies Wal-Mart All You e, renascendo das cinzas, Life. A ressuscitada Life é distribuída como suplemento de fim-de-semana em cerca de 80 jornais. “Se resultar, a Life é certamente a última revista de massas a chegar ao mercado”. Corrijo: para sempre? “Talvez. Provavelmente”. Pergunto-lhe tendo em conta o esplendor passado da Life se não é um bocado triste presidir aos destinos desta coisa diminuída, medíocre, que recuperou o nome Life? É a sua vez de fazer má cara. “Sou obrigado a responder?”. É deprimente mas é assim.

No fim da nossa conversa, interrogo-o sobre o futuro da imprensa periódica. “A grande questão que todos colocam a si próprios [na Time Inc.] é em que medida [as dificuldades actuais] são de natureza cíclica ou a tendência é secular”, responde. Uma grande parte é secular – ou seja, permanente. Gostaríamos de acreditar que o confronto entre a Internet e a imprensa é semelhante àquele que opôs a televisão à rádio nos anos 50. O recém-chegado não elimina forçosamente o existente. Mas, na minha opinião, a imprensa de hoje parece-se mais com os veleiros de 1860 – sempre dominantes, mas vivendo os seus últimos dias de glória. Acredito que é o princípio do fim para os jornais. “Espero que não”, replica Huey. “Se pensasse que estavam mortos, teria feito outra coisa”. O meu triste lamento deixou este homem divertido e entusiasta um pouco melancólico. “A maioria das pessoas na América gostaria de ver a Time sobreviver, mesmo que não se aperceba disso”. Neste aspecto tem, evidentemente, razão.

Por Kurt Andersen (New York Magazine)

Fonte:
Courrier Internacional – Nº 50 (17 a 23 de Março de 2006)

João Pedro Lobato

Publicado por estaccs às março 30, 2006 11:17 PM

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