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Isto é o que considera Paulo F. Silva, Editor do Jornal de notícias em entrevista ao Notícias lusófonas, que com a devida vénia se reproduz na íntegra.
Paulo F. Silva, Editor do maior jornal português (Jornal de Notícias) considera também que as Redacções não são os espaços de liberdade com que sonhou.
Paulo F. Silva tem 45 anos, integra a Redacção do Jornal de Notícias (JN) desde 12 de Abril de 1994, vindo do jornal "O Jogo", onde começou a colaborar no ano da sua fundação, 1985, e profissionalizou-se em 1991. Neste momento é editor da secção País, e membro do Conselho de Redacção. Além disso, integra desde 2003 o Conselho de Administração da Casa da Imprensa, associação mutualista de jornalistas. Ao serviço do JN, fez várias reportagens que foram importantes no percurso profissional e pessoal: em Timor-Leste (em Outubro de 1999, quando os militares da Interfet assumiram o território, após a debandada indonésia); no Paquistão e no Afeganistão (de resto, integrou o primeiro grupo de jornalistas portugueses a chegarem a Cabul, em 2001, dois dias após a coligação anglo-americana ter assumido o controlo político-militar da situação); e na Palestina (em 2004, onde acompanhou as exéquias fúnebres de Yasser Arafat).
Por Jorge Castro
Notícias Lusófonas - Em Portugal assiste-se cada vez mais à discussão sobre Jornalistas e produtores de conteúdos. Faz sentido este tipo de discussão? Ou será que ela reflecte apenas a perda de poder profissional dos jornalistas?
Paulo F. Silva – A discussão faz sentido, em minha opinião, e convém não confundir quem é jornalista com quem é produtor de conteúdos. Jornalista é aquele que procura a notícia, o que é singular e se distingue numa floresta densa, histórias humanas com as quais as pessoas possam, de algum modo, identificar-se, e o técnico de informação não é, nem precisa de ser, jornalista, embora também comunique e procure interagir com a tal floresta. O volume anormal de jornalistas com carteira profissional, num mercado tão pequeno e limitado, talvez explique a discussão. Mas tenho esperança de não acabar, um dia, por voltar a ver um telejornal apresentado por um comunicador, ou de acabar a minha vida profissional a produzir conteúdos sendo reconhecido como jornalista. É evidente que o poder profissional dos jornalistas está em queda, basta pensar no prestígio humano que ainda agora associamos aos jornalistas das décadas de 50 e 60, por exemplo, só para falar em muitos que, felizmente, ainda estão vivos, e na falta de dignidade que atinge hoje quase toda a classe.
NL - O Jornalismo português esteve em destaque com alguns casos mais mediáticos, como é exemplo o caso Casa Pia ou Apito Dourado. Pensa que, de uma forma geral, os jornalistas estiveram bem? Ou terão sido "manipulados" pela guerra das audiências/tiragens?
PFS – Os jornalistas estiveram bem na fase da denúncia, ao quebrarem o silêncio que cobria o que alguns sabiam existir. A partir daí, assistimos à grande confusão, aos mais elementares atropelos das regras deontológicas e, enquanto leitor, tenho uma enorme dificuldade em separar o que é genuinamente informação, notícia, investigação, e o espectáculo malabarista em prol de mais um ponto no “share” ou de uns jornais vendidos a mais. Há uma crescente falta de pudor que é assustadora. A “manipulação” aconteceu, sim, e prossegue, ainda agora, mas pela batuta de supostos informadores e fontes nunca identificadas. O comportamento recente das autoridades judiciais, ao invadirem a Redacção do “24 Horas” com todo o lamentável espectáculo que lhe foi associado, é disso prova, como se o grande e grave problema estivesse na divulgação do que foi escrito...
NL - Em Portugal assiste-se à concentração empresarial dos meios de comunicação social. Não significará isso que os jornalistas estão cada vez mais obrigados a "comer e calar"?
PFS – A concentração dos meios é assunto muito mais sério do que se julga e mereceria um cuidado especial que, infelizmente, não lhe tem sido dispensado, pela sociedade civil, os jornalistas, os políticos e os partidos, por todos nós. No imediato, a concentração traduziu-se na perda da memória nas redacções, a falta de gente mais velha e experimentada, que viveu coisas que eu não e a quem eu possa fazer uma simples pergunta, e na falta de algo que identifique o todo de cada Redacção, uma identidade específica para cada título. E uma Redacção sem memória nem identidade só pode caminhar para um jornalismo domesticado, cinzento, que se reproduz a si próprio, onde há espaço para tudo à excepção da criatividade, da rebeldia e da capacidade de re-invenção diária. O embrulho, o produto que chega ao público, como agora se diz, pode ser muito bonitinho, mas não é mais do que isso mesmo. Quanto aos jornalistas, deixemo-nos de tretas: eles têm de pagar as contas do final do mês como toda a gente, muitos comem e calam literalmente. A realidade empresarial de hoje é impiedosa e as redacções não são os espaços de liberdade de que ouvi falar e com que sonhei.
NL - As Universidades portuguesas continuam todos os anos a atirar para o mercado de trabalho centenas de jovens habilitados para o jornalismo. Não se estará antes a formar gente para o desemprego? Há mercado para tanta gente?
PFS – Estou convencido que, de facto, as universidades estão a fabricar licenciados para o desemprego, porque não há mercado de trabalho, neste sector, que consiga absorver tanta gente, é impossível. E não consigo entender como os sucessivos governos não querem ver esta dura realidade. Qualquer jovem que entra num curso de jornalismo ou de comunicação, seja lá qual for a designação, não percebe o engodo mercantil e aspira, com inteira justiça, a ser jornalista. Mas não há redacções para todos eles, nem uma pequena parte. E os que conseguem acabam subjugados ao poder vigente, porque foi esse mesmo poder que, curiosamente, lhes permitiu chegar à tão ambicionada profissão. De qualquer modo, o acesso à profissão não é feito pela via da formação académica, o trajecto é outro, depende de quem manda, e as regras são tão opacas e arbitrárias que nem consigo percebê-las para as explicar.
NL - Ainda sobre as Universidades. Os cursos de jornalismo (ou de comunicação) são recentes. O que pensa desses cursos? Preparam realmente os jovens, ou não passam de mais uma actividade comercial?
PFS – Não tenho conhecimento directo do que se passa nesses cursos, apenas me chega um ou outro relato. Mas posso falar da minha própria experiência. Enquanto estudante, acabei por não concluir o curso da Escola Superior de Jornalismo, no Porto, porque, simplesmente, fui ludibriado. Já trabalhava, era pai e tinha consciência de que não poderia fazer todas as cadeiras no ritmo que seria exigível a quem tinha todo o dia para estudar. Foi-me explicado que a propina, a partir do segundo ano, se reportaria apenas às cadeiras em que me inscrevesse. Mentira! E à mentira reagi da única forma possível: nunca mais pus lá os pés. Como jornalista, a experiência proporcionou-me, até agora, o contacto directo com um razoável leque de estagiários mal preparados, completamente desfasados da realidade, alguns empenhados e cheios de boa vontade, mas todos sem saber o que fazer perante os factos concretos. Perceber o poder fantástico que têm um telefone e uma lista telefónica é uma luta curiosa. E, em abono da verdade, comigo a lutar contra a minha própria falta de tempo para poder ajudá-los.
NL - Em Portugal assiste-se a uma nova realidade. Muitos jornalistas criam na Internet os seus próprios espaços. Quer isso dizer que nos órgãos onde trabalham não têm liberdade para escrever e, por isso, recorrem a essas alternativas?
PFS – Penso que é mais o aproveitamente de uma ferramenta nova. E a alternativa que esses jornalistas procuram nesses espaços é mais um grito de revolta, um alerta que funciona num determinado círculo, restrito, o círculo dos que têm acesso aos blogues, por exemplo. É, também, a possibilidade de partilhar com alguém algo que, por mil e uma razões, não tem espaço no seu meio de comunicação. Além do gozo pessoal: é-se director, chefe de redacção, editor, jornalista, repórter...
NL - Em Portugal existem os Provedores do Leitor. Esse cargo faz sentido? Terão os Provedores real poder ou não passam de algo que apenas serve para credibilizar as Jornais junto dos leitores?
PFS – A ideia é boa, e há, pelo menos, dois casos que tiveram um bom desempenho, refiro-me, em concreto, a Mário Mesquita e a Manuel Pinto. Não me parece que o poder dos provedores seja limitado pelas direcções, mas acho que o êxito da sua acção depende, e muito, das características específicas de cada provedor, da sua capacidade de intervenção. Mas também estou convencido que dá imenso jeito a um jornal ter um Provedor do Leitor. Marketing oblige...
NL - Dizem-nos que em Portugal muitos dos textos assinados nos jornais o são por pessoas não habilitadas com a respectiva cédula ou carteira profissional. É verdade? Se sim, não deveria ser obrigatório estar habilitado? Se não, porque razão se fala nisso?
PFS – Pelo que sei há, na verdade, textos noticiosos assinados por quem não está habilitado para tal, mas isso é algo para a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista investigar. A notícia deve ser obrigatoriamente assinada. Quanto ao texto opinativo é outra conversa.
NL - Em Portugal, o único organismo representativo dos Jornalistas é o respectivo Sindicato. Pensa ser útil a criação de uma Ordem dos Jornalistas?
PFS – Os jornalistas, seres geneticamente individualistas, livres e anti-corporativistas, não precisam de uma Ordem, de filiação necessariamente obrigatória. Se está a pensar nas violações do Código Deontológico, pois bem, criem-se condições para que os prevaricadores sejam efectivamente punidos, não só moralmente, punidos de facto. Mas para isso não é preciso qualquer Ordem. O Sindicato dos Jornalistas chega e sobra.
NL - No vasto leque da Comunidade de Países de Língua Portuguesa faz-se, é claro, bom e mau jornalismo. O que se lhe oferece dizer sobre o exercício da profissão nos países da CPLP?
PFS – Conheço o jornalismo enfeudado no poder, e conheço o jornalismo, diria mesmo, heróico. Nasci em Angola e, como compreende, tento seguir, ainda que à distância, o que por lá vai acontecendo. E podia citar-lhe coisas abjectas, autênticas folhas de couve, mas também podia falar-lhe de espaços, esses sim, livres, embora quase clandestinos. Com a previsível chegada da democracia a todos os os países de Língua Portuguesa acredito que a situação normalize, e passe a existir bom e mau jornalismo, no sentido clássico da expressão.
Fonte: Notícias Lusófonas
Publicado por estaccs às fevereiro 27, 2006 05:20 PM
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