|
A escolha de Azeredo Lopes para fechar o quinteto de conselheiros da nova entidade reguladora que controlará os media (ERC) partiu, na prática, do PS e PSD. A decisão de se chegar a um quinto nome deveria pertencer aos outros quatro indigitados.
O CM sabe que os dois maiores partidos acabaram por condicionar a opção do quarteto formado por Estrela Serrano, Rui de Assis Ferreira, Elísio Cabral de Oliveira e Luís Gonçalves da Silva, anteontem ouvidos no Parlamento. “Não houve nenhuma imposição. Foi-lhes apenas sugerido o nome” de Azeredo Lopes para integrar o grupo dos futuros conselheiros da ERC e para ser seu presidente, garante-nos fonte parlamentar. A sugestão, claro, é um eufemismo, como aceita o mesmo deputado.
A opção pelo professor catedrático do Porto – revelada ontem pelo nosso jornal – foi, de resto, complicada. Antes de se avançar para o nome de Azeredo Lopes, os dois partidos com maior representação parlamentar tiveram de ‘partir muita pedra’. “Não foi nada fácil chegar a um entendimento, até porque houve vários nomes vetados”, afiançou-nos um parlamentar, sublinhando, por outro lado, que, tal como o CM denunciara ontem, todo o processo fora concertado ao mais alto nível, isto é, com o patrocínio de José Sócrates e Marques Mendes. Tal não significa que os dois líderes partidários tivessem estado directamente envolvidos nas negociações.
A forma como o processo se desenrolou vai de encontro às suspeições levantadas por António Filipe no início da audição, anteontem, a Serrano, Ferreira, Cabral de Oliveira e Gonçalves da Silva. O deputado comunista acusou, então, os partidos de já terem definido o nome a cooptar e, depois, como ele próprio definiu, fez uma manobra... ‘à Luís de Matos’ (ilusionista), entregando à socialista Celeste Correia um papel com um nome. E qual era? O de... Azeredo Lopes. O parlamentar comunista acabara de acertar em cheio.
“O segredo está desfeito”, disse António Filipe, que colocou em causa a credibilidade da futura entidade reguladora. “Quando os elementos propostos a um órgão desta importância abdicam da sua primeira decisão, a independência está imediatamente em causa.” O CM tentou ouvir Azeredo Lopes e os outros indigitados, mas não teve sucesso.
"COMPROMETE INDEPENDÊNCIA" (Artur Portela, Ex-membro da AACS)
Já tinha indicação, há largas semanas, de que haveria uma combinação neste sentido e que a escolha recairia sobre o prof. Azeredo Lopes. Mas era apenas um rumor. A confirmar-se, considero ser uma situação lamentável, que compromete a imagem, a independência e a própria funcionalidade do novo órgão regulador. É ridículo!
Aquilo que é mais preocupante é o órgão ficar ferido do ponto de vista político, cultural e moral ainda antes de iniciar funções. E acho lamentável haver quem aceite entrar no jogo de cooptar uma pessoa que já está designada, por outras entidades, a montante. Surpreende-me que pessoas como a Estrela Serrano e o Assis Ferreira se tenham prestado a isso.
"ESPÍRITO DE MISSÃO" (Francisco Rui Cádima, Professor de Ciências da Comunicação)
Quem vai para um órgão regulador deve ir com espírito de missão, de serviço público e cidadania, tendo em atenção a responsabilidade social dos media. Quem entra num órgão de regulação com uma estratégia de compromisso está, eventualmente, a ter um contributo diminuto para essa dimensão de cidadania que se procura.
Tenho boa impressão do prof. Azeredo Lopes. Parece-me um indivíduo sólido. Pode é não ter a informação suficiente para criar um distanciamento relativamente aos media, e ao sistema que poderá vir a presidir, e a todo um conjunto de práticas existentes na lei, que, de alguma maneira, também exigem a ética na prática profissional jornalística.
Fonte: Correio da Manhã
Publicado por estaccs às janeiro 27, 2006 11:13 AM
Comentários
Comente
|